25 agosto 2013

Médicos cubanos: uma outra medicina é possível. Ou: o buraco é mais, mas muito mais embaixo.


"O melhor médico é aquele que recebe os que foram
desenganados (ou abandonados) por todos os outros". (Aristóteles) 


Esse debate todo sobre os médicos cubanos, para mim, é de grande importância, muito relevante, por que desvela exatamente a questão principal, que não se discute na mídia (nem interessa discutir): que a medicina ocidental curativa, baseada em diagnósticos a partir de aparelhos e instrumentos caríssimos, e apoiada na e pela indústria farmacêutica e os planos/seguros de saúde privados não é a única forma de praticar medicina.

Existe uma outra medicina possível, e de muito melhores resultados para a população mundial em geral: a medicina preventiva, humanitária, apoiada nos profissionais da saúde e em práticas de custo bem menor com resultados excelentes para a saúde pública. É essa medicina que os médicos cubanos esfregam diariamente, há décadas, na cara da medicina capitalista, e que faz os grandes empresários dessa indústria da doença, dos remédios e tratamentos de altíssimos custos espernearem desesperadamente (os grandes e renomados hospitais, geralmente privados, a indústria farmacêutica, os planos e seguros de saúde privados, os governos que também lucram com isso, e também os médicos, os doutores “ricos e cultos” – segundo eles mesmos – que enriquecem servindo e sendo servidos pela indústria da medicina de alto custo).

Nem preciso dizer que não sou contra a medicina “de ponta”, de alto custo, que salva muitas vidas. Mas salva vidas de ricos e alguns poucos pobres a quem estende suas mãos, para dar a parecer que atende a qualquer um. Todos sabemos que não é assim que a medicina funciona no capitalismo. Ela funciona para ricos que podem pagar por ela.

Por isso é que a medicina humanitária e preventiva, representada pelos médicos cubanos, é de extrema necessidade no Brasil e em qualquer lugar do mundo pobre; por que ela salva vidas prevenindo doenças evitáveis, doenças da pobreza, que, não tratadas desde o início, desenvolvem-se em doenças mais graves e que vão necessitar de intervenções muito mais complicadas e caras. E essas pessoas não terão acesso à medicina de ponta.

Outra questão da maior importância: estamos julgando os médicos cubanos – e sua medicina – pelos critérios da medicina capitalista e do trabalho capitalista. Chamando-os de escravos do governo cubano, que exporta mão-de-obra e fica com o dinheiro que advém dela. Mas os médicos cubanos, que vão a outros países e aceitam ficar com uma parte apenas do que recebem, enquanto outra fica com seu governo, pensam assim? Creio que seria interessante e justo ouvir o que os médicos cubanos têm a dizer a respeito: "Somos médicos formados com base no humanismo e na solidariedade. Viemos trabalhar para a melhoria da saúde do Brasil". Essa fala diz tudo. Coloca o dedo na ferida dessa pendenga toda, mostrando que há pessoas no mundo que não enxergam pela ótica capitalista e que não vivem pelo dinheiro apenas. 

Eu, particularmente, como professora – assim como muitos outros professores que conheço – sempre trabalhei na periferia, com a população mais pobre, e não foi por falta de opção. Foi por acreditar na educação pública, gratuita e de qualidade. E que meu trabalho poderia fazer diferença. Como conheço muitos profissionais da saúde – enfermeiras(os) e técnicos – que trabalham nas periferias, em cidades de fronteira, em locais absolutamente isolados e não se importam com isso, por que sentem – sabem – que são úteis. E trabalharia até de graça se soubesse que meu trabalho serve à população mais pobre do país, que vai ser usado para melhorar a qualidade de vida do povo e das próximas gerações.

E esses profissionais que se dedicam à saúde, à educação, não tiram dinheiro por fora (como os médicos dos grandes centros, que ganham extra para pedir exames de altíssimo custo para qualquer doencinha, que ganham dos laboratórios farmacêuticos para receitar seus remédios – muitas vezes nem sabendo exatamente como funcionam e se serão mesmo úteis para aquele paciente). Infelizmente, os “cultos e ricos” doutores servem ao capital, mesmo que se escondam atrás de uma máscara de sensibilidade e preocupação com a saúde da população. 

Só que, agora, com a vinda dos médicos cubanos, essa máscara caiu. Eles próprios tiraram as máscaras e mostraram ao Brasil e ao mundo o que são, realmente: escravos do capitalismo, da indústria privada da medicina. Dizem que Cuba vai ficar com 60% dos salários dos médicos cubanos. E o lucro que os médicos brasileiros/capitalistas dão aos hospitais e seus proprietários, à indústria farmacêutica e de equipamentos de diagnósticos, aos laboratórios de análises clínicas? 

Os “ricos e cultos” doutores são, eles sim, escravos do capital, reproduzindo e servindo a injustiça social, a desigualdade social, a insensibilidade com os pobres, o descompromisso com a saúde pública, a total falta de preocupação com 80% da população mundial que não tem acesso à medicina de ponta.

Por isso digo: bem vindos, doutores cubanos, o povo brasileiro precisa de vocês. E os médicos brasileiros deveriam aprender com vocês a “trabalhar para a melhoria da saúde no Brasil”.


Eloisa Helena Maranhão.

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