10 outubro 2013

Labirinto

“Eu sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma.”
"À impressão de enorme antiguidade juntaram-se outras: a do interminável, a do  atroz, a do complexamente insensato. Eu havia cruzado um labirinto.  
(Jorge Luiz Borges)  
Foi ela própria quem se ofereceu como voluntária. Uma das virgens mais bonitas e inteligentes da cidade, de família próspera, com excelentes pretendentes a um casamento ideal.
A cidade toda reunida na praça, virgens e moços com os corações desembestados como os touros que criavam no curral, tentando domá-los – tanto os touros quanto o medo que crescia dentro deles, medo de ser um dos doze escolhidos.
E ela simplesmente caminha até o rei, ajoelha-se e diz: eu vou.
Partida. O óbvio... choro, abraços, adeus desconsolados... navio içando as velas – negras, sinal do luto da cidade pelos doze jovens levados para portos distantes, para a ilha amaldiçoada por mães e odiada por pais e irmãos deixados para trás... até mesmo o nome do rei Minos lhes enchia de terror e revolta... revolta que nunca se concretizava, afinal o futuro aos deuses pertence... um dia... um dia alguém derrotará o inominável ser que lhes assola as noites com pesadelos, e os dias com imperceptíveis sobressaltos...
Foram sendo descidos do navio e colocados dentro do Labirinto... um a um, soltos das amarras, abandonados nas desveredas e salões onde ficariam até serem encontrados por ele e... e o quê, exatamente?... ninguém sabia o quê, sabiam apenas que ouviam o estridente silêncio depois de gritos calados, e nunca nenhum dos jovens tinha encontrado a saída e voltado para contar o que quer que fosse. Fantasiavam, portanto, já que à imaginação cabe o que falta à vida de cada um.
Para ela foi um alívio ver-se à entrada do Labirinto, saboreou o prazer de missão cumprida, e entrou. Pela primeira vez na vida sentia a sensação de fatalidade, maktub, teria dito se fosse Sheerazade...  falou baixinho algo como: estava escrito, e cumpro.
De início, e como devia ser, perdeu-se nos labirintos... vagou por tempos incontáveis, perdendo aos poucos a noção dele, já não sentia frio ou calor, nem a aspereza do chão em seus pés descalços... apenas sentia os cheiros, cada vez mais fortes à medida que perdia os outros sentidos, urina velha, fezes, suores de pavor, sangue seco... cada odor era absolutamente perceptível, distinguível dos outros, e ela ia se acostumando a compreender seus labirintos por eles... aqui uma das vítimas urinou aterrorizada... aqui outra morreu, mas já estava desmaiada, não há cheiro de medo nesse sangue... Também aperfeiçoou a audição...  ouvia cada pequeno som, gemidos, soluços que alguém tentava conter mas escapavam, gritos e urros de dor e pavor... sabia que seu algoz também ouvia cada um desses sons, e sentia os cheiros com a mesma intensidade que ela, e isso a deixava inquieta e satisfeita ao mesmo tempo... estavam próximos e logo estariam juntos... Deitava-se nas pedras do chão e despertava com gritos que desapareciam minutos depois... mais um, ela contava, sabia que seriam onze antes do encontro definitivo com seu senhor.
Uma vez, ao acordar de um sono vazio, intuiu que aquele seria o dia do encontro... cada corda de si estava retesada, qualquer mínimo som ou odor a fazia fremir, seus nervos todos em compasso de espera... mas não havia medo nem angústia, apenas uma excitação do momento pelo qual esperara e se preparara a vida toda.
Há tempos já não ouvia choros, nem gritos, e sabia que os outros tinham encontrado seus destinos; faltava somente o dela, agora, e sentia alívio por ter chegado seu dia de ser resgatada.
Resgatada de quê? Não sabia... De si mesma? – mas se nem havia tido tempo de chegar a ser a si própria... Ou resgatada de uma vida sem sentido, dos labirintos e descaminhos que desembocaram em seu destino? Só sentia que aquele era o seu dia, pelo qual há milênios e encarnações esperava, tremendo em cada uma delas, sabendo que só seria ela mesma quando o olhasse nos olhos... o resto seria fácil, seria simples, seria aceitável e desejável, por que era seu instante único pelo qual sempre suportara cada uma de suas existências, buscando, procurando, mas só achando naquele momento, naquele Labirinto.
Quando finalmente se olharam, o tempo rompido, suspenso neles, compreenderam tudo... compreenderam a busca, a inquietação constante, o choro, os sorrisos, a espera... compreenderam sobretudo a espera, e já não importava mais o tempo perdido, gasto, pois ali, naquele olhar, já não havia espera nem procura...
O Minotauro deitou-se no colo da virgem e chorou... ela cantou canções para ele, contou-lhe histórias... e adormeceram o sono que repousa nos braços um do outro. E ela soube como uma virgem é engravidada por um deus.
Eloisa Helena Maranhão

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