06 maio 2014

Carta para Fabiane, linchada no Guarujá

Fabiane Maria de Jesus:

Desculpe essa intimidade de te chamar pelo nome, mas é proposital. Por que vítimas como você, o Amarildo, a Cláudia, o Alailton, o Marcelo e tantos outros assassinados, torturados, com seus corpos violados pelo Estado (através de suas polícias militares) ou pela Sociedade (através de grupos de pessoas enlouquecidas que lincham outras), essas vítimas, Fabiane, precisam ser chamadas pelos nomes, para que todos percebam que são seres humanos que foram torturados e mortos. Não são números, não são “casos”. São seres humanos.

Com família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, de estudo, de igreja, enfim, são pessoas com uma vida social e individual que lhes foi tirada violentamente.

Eu sinto muito, muito, muito, Fabiane, minha irmã, minha amiga, filha minha, o que fizeram com você. Pessoas com um mínimo de consciência, de sensibilidade, de empatia só podem sentir muito. E se organizar, para cobrar Justiça para você e todas as outras vítimas dessa sociedade selvagem.

Não é só no Brasil. É doença do mundo. Do sistema capitalista, que trata pessoas como mercadorias, como consumidores, como contribuintes que pagam seus impostos. Isso é selvageria, e você foi uma das milhões de vítimas desse sistema tão perverso, nefasto, cruel, violento, que chamamos de “sociedade”, de “civilização”, de “cidade”, de “mundo”.

Mulheres estupradas e assassinadas; jovens negros assassinados nas periferias das grandes cidades; índios e camponeses torturados, assassinados, expulsos de suas terras; crianças e adultos escravizados, tanto para o trabalho quanto sexualmente; idosos abandonados e desamparados; povos inteiros tendo de fugir de seus países por causa das guerras imperialistas; negros vítimas de racismo; de todas as formas de racismo; homossexuais vítimas da homofobia... E tantos, tantos outros tipos de violência contra a maioria da população mundial.

Mas isso não diminui o terror da sua morte, Fabiane, o fato de ter milhões que também são vítimas de todo tipo de violência, institucionalizada ou não. Você era única para suas filhas, para seu marido, para sua família, para quem a amava. E sua perda é uma perda insubstituível.

Então eu desejo, Fabiane, que seus linchadores sejam identificados pela polícia, julgados, condenados e punidos pela Justiça. A Justiça que não fizeram com você. Se você fosse suspeita de alguma coisa, deveria ter sido ouvida, investigada e julgada. Nunca executada. O fato de você ser inocente não piora nem melhora o que foi feito, pois deveríamos viver num Estado de Direito, onde a Justiça é feita pelo Judiciário, e não pela polícia nem pelo povo. Isso que fizeram se chama justiçamento popular, e é a forma mais covarde e insana de “justiça”.

Insana, sim, louca, demente, por que linchadores também são pessoas comuns, que andam pelas ruas, estudam, trabalham, têm família e amigos, enfim, fazem parte da mesma sociedade que suas vítimas. E sua insanidade – que não lhes tira a culpa nem a responsabilidade pelo que fizeram – vem do medo que sentem. Eles agem por medo, são insuflados a serem violentos pela mídia. São pessoas comuns constantemente, diariamente, insistentemente bombardeadas por notícias que as enchem de... medo. E se voltam contra qualquer um que lhes seja apontado como suspeito, como criminoso, como diferente, qualquer um que lhes sirva de bode expiatório para seu medo e sua violência. São pessoas comuns, sim, mas com os olhos cheios de sangue. Têm medo, têm ódio e querem a destruição de todos que sejam diferentes. Deixam seu status de humanos para se tornarem monstros, feras selvagens, chacais prontos a atacar e destroçar. Foi o que fizeram com você, menina.

E, por isso, por esse medo e violência insuflados, é que desejo que também a mídia seja julgada e punida, assim como quem criou e divulgou o boato que levou ao seu linchamento.

Não, eu não quero mais ver fotos suas, Fabiane.Não quero assistir ao filme que fizeram de seu linchamento. Por que isso é sadismo, é gozar com sua dor, seu horror, todo o sofrimento que passou. E que sua família também vai carregar pela vida toda. Isso é prolongar a violação do seu corpo, com essas fotos que mostram você caída, pisoteada, espancada, ensanguentada, morta. 

Até há pouco tempo atrás, tínhamos “castigos pedagógicos”. Os condenados eram mortos, esquartejados, a cabeça levada para as cidades e aldeias verem que foi castigado. As bruxas e hereges eram queimados ou mortos em praça pública, com todo o povo assistindo. Parece que esses “tempos antigos” se mantém ainda hoje, a selvageria humana continua, debaixo da capa de civilização.


Espero, Fabiane, desejo muito que sua família encontre paz, conforto, sejam aliviados do sofrimento que lhes infligiram através do seu linchamento. Mas que, mais que consolo, desejo muito que suas filhas – e todos os nossos filhos - vejam a Justiça sendo feita, tanto para você quanto para as outras vítimas, para que eles, nossos filhos e filhas, possam ter um pouco de esperança na sociedade em que vivem, e vontade de viver nesse mundo completamente absurdo.

Eloisa Maranhão.