30 outubro 2015

Aracne, a tecelã de (falsas) teias.

"Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?

Muito embora nada tenhas,

estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma
na imensa tearia..."
(Mauro Mota)

"Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo." (Cecília Meireles)


Aracne era tecelã. Era seu ofício e seu saber. Não fazia outra coisa a não ser tecer. Te-ser. Te-ser-se. Teias, muitas teias. Regulares, bem organizadas, mas, muitas vezes, absolutamente irregulares, e isso dependia do seu estado momentâneo. Aracne produzia o que conseguia, e não o que considerasse melhor, ou que desejassem para ela.
Algumas teias ela deixava incompletas, outras terminava e nelas habitava até que se desintegrassem. De outras tantas, mudou-se quando enjoou daquelas formas. Aracne gostava de experimentar formas. De experimentar a flexibilidade ou a viscosidade dos fios. Ela gostava de tentar.
O problema de Aracne (afinal, humanos, todos têm algum problema, ninguém é um solucionado completo, e Aracne não escapava dessa sina), o problema é que o tentar de Aracne não tinha um fim, uma finalidade, algo a ser conseguido... Era, simplesmente, tentar, mesmo, continuar tecendo enquanto aguentasse...
Pobre Aracne (ou rica, se se pensar que, pelo menos, ela perdendo as ilusões, ganhava experiência). Ficamos assim, para evitar injustiças: Aracne era pobre e rica. Provavelmente como todos os humanos. Mesmo ela não sendo humana, mas isso não vem ao caso, já que na Terra vivia, e com os humanos convivia. E, às vezes, também tentava ser como eles, mas só às vezes, e cada vez menos vezes.
Ela nunca havia pensado nisso antes, mas foi percebendo que a maioria das pessoas tem uma finalidade que persegue, faz planos, tem projetos de vida... Aracne nunca teve... Nem queria ter... Talvez até quisesse, ou tivesse querido um dia, mas com essa coisa de perder as esperanças, de dar adeus às ilusões (Aracne e Elizabeth Taylor), talvez fosse mais simples, mais cômodo e menos doloroso pensar que ela própria não queria ter uma finalidade. Talvez. Por que talvez, também, fosse mais complexo, mais incômodo e muito mais doloroso pensar que não tinha finalidade por que essa nunca tinha existido, pra ninguém. Ou por que ela era incapaz de conseguir isso. De qualquer forma, não querendo, ou querendo, a dor estava ali.
Aracne não se importava muito com isso de não ter finalidade na vida, de não tecer objetivos, mas só as teias, que eram extensões de si própria. Não era uma coisa que fazia diferença pra ela...
A sensação que tinha é que tudo que fazia e já tinha feito havia sido instintivo, uma necessidade básica e absolutamente impostergável na ocasião em que as fizera, como as opções seguidas, as decisões que tomou – e se responsabilizava por todas elas, não porque se sentisse moralmente obrigada a essas responsabilizações, mas porque se sabia socialmente chamada a se responsabilizar pelo que acontecia com ela; fazia parte do jogo. Não podendo retirar-se do jogo no momento, Aracne jogava como podia.
Ela, realmente, não se sentia responsável no sentido de escolhas, de ter optado por algo, mas no sentido de aquilo ter acontecido em sua vida; e ponto. Cada ocasião ou situação ou acontecimento tinha sido apenas uma entre as tantas opções que poderiam ter sido... Aracne nunca se sentia andando ou tecendo "um" caminho que levasse a algum lugar específico... Era adepta (Aracne e Antonio Machado) por opção, ou falta dela, do “caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao caminhar”.
Outro possível problema de Aracne, ou não, é que nossa tecelã preferida (não é sua tecelã preferida? A minha, é), é que Aracne não confiava em nada nem ninguém. Oh, diziam os incautos, os julgadores, os cheios de pedras nas mãos pra tudo que escapulisse um tiquinho que fosse ao senso comum, que horror ser desconfiada assim, que terrível um ser tão sem confiança! Confie, diziam, confie, Aracne, que sem confiança você não chega a lugar algum. Mas como lugar algum não existia, que diferença fazia se confiava ou não?
Mas ela era assim (vou defendê-la, tá, já que é minha tecelã predileta, e é muito triste só ter algozes, promotores e juízes, e nenhum advogado), ela era assim, sem confiança, porque sabia, perfeitamente, que não existia algo como Absoluto, ou Verdade, para que se confiasse... Ou seja, Aracne não era desconfiada, ela, simplesmente, não tinha confiança. Confiança não era um conceito dentro dela, nem tinha significado no seu dicionário. Para ajudar a compreensão dos difíceis de compreender, é como ser imoral ou amoral. Aracne, no caso da confiança, era uma não-confiada, e não desconfiada. Entendeu? Não? Sinto muito. Ou melhor, não sinto muito nada. A questão, aqui, é falar de Aracne.
Confiança, esperança são conceitos ligados a algo concreto (ou abstrato, mas concreto no sentido de existir) que alguém sabe, conhece, e pode ser partilhado... Para Aracne, esse saber (do Outro, nem dela mesma) nunca existiu, era tudo construções, era como uma imensa rede infinita, fluida, sem bordas, sem limites, uma rede onde ponto algum era central, ou Absoluto, ou se podia colocar como ponto de partida... Mesmo tecendo sua teia a partir do centro, Aracne sabia que centro também é constructo social, conceito abstrato, para poder se partir de algum lugar. De algum lugar tinha que partir, e não importava que lugar fosse esse, desde que fosse tecendo suas teias, que esse era seu único mister.
Além disso, ela também sabia que nada podia ser partilhado, que a esmagadora maioria das experiências e sentimentos é incomunicável... Qualquer comunicação era da superfície, nunca de algo mais profundo, que as profundezas eram o lugar do inacessível e, portanto, do não transferível, do não compartilhável... Os abismos, precipícios, as fossas abissais onde se situava o seu centro – inventado – nunca vinham à superfície.
Aracne já havia nascido nessa rede sem ponto central, e sabia que esse ponto não era real, era apenas uma ilusão para se situar, se sentir firmada em algo... Ela vivia sentindo os pés sem chão, o chão, inexistente, jogada sobre algo sempre móvel, escorregadio, que mudava constantemente ao sabor do nada... Seus deuses, por isso mesmo, eram apenas o Acaso e a consorte dele, Aleatória...
Tanto fazia, para ela, se era dia ou noite, sol ou chuva, frio ou calor, férias ou trabalho exaustivo, tanto fazia o que quer que fosse, porque tudo ia passar – tudo já era passado, mesmo sendo presente ou parecendo futuro... E tanto fazia porque tudo era imutável, inclusive ela. Aracne vivia num presente contínuo, num embuste repetitivo, ad nauseam.
Para ela não havia um lugar, um topos definido, ela vivia literalmente na utopia, era a sem-lugar. Também não tinha um tempo cronológico ou organizado, nem coordenada alguma que a situasse, que servisse para lhe segurar na vida, para lhe dar um ponto de partida ou de chegada... Vivia solta num espaço amplo demais, hostil demais, vertiginoso demais, eternamente dependurada, e se prendia apenas por um fio, num ponto de tangência que, a qualquer momento, poderia jogá-la pra fora desse universo em que vivia... Um universo sem sentido, sem nexo, sem vinculação, sem encadeamento, sem conexão, sem liame, sem relação, sem associação, sem junção, não era elo de cadeia alguma. Era uma sem-link, Aracne.
Também era a sem-futuro, a sem-noção... Sem noção do que quer que fosse, apesar de parecer mais ou menos lúcida, bem orientada, de conseguir viver razoavelmente – por algum tempo, ou em algumas fases – na tal da “realidade” em que via os humanos viverem.
Mas não se afobem incautos, porque essa realidade, para ela, não era absoluta nem tinha valor algum, era apenas o lugar onde ela se encontrava no momento... E de onde não saía, tanto por ser cômodo quanto por não ver outra opção... Sair de onde, e para onde?  Buscar o quê? Buscar... Nunca buscou nada, as coisas simplesmente aconteciam, e eram aceitas com naturalidade... O que era, era, e ela não via como mudar as coisas, porque as mudanças também lhe pareciam tolas, já que mudar era apenas mudar circunstâncias, e nunca o “cerne” – justamente porque cerne, centro, miolo, medula, essência não existiam. Tudo era tudo e era nada.
Aracne, por isso, se apegava muito a uma rotina qualquer que fosse, rotina esta, obviamente, inventada, como todas as rotinas de todos os humanos, e tinha uma necessidade – que pareceria doentia, talvez – de tornar coisas em absolutos: seus amores, sua casa, suas teias, seus animais de estimação (entre eles um elefante fabricado por ela mesma, com seus parcos recursos, e um unicórnio azul que encontrou na rua e resolveu ficar com ele. O dono que o procurasse e lamentasse sua perda, se quisesse, por que ela não o iria devolver, nunquinha).
Inventava esses absolutos por extrema necessidade desse ponto de amarração de sua vida, que não existia (a amarração nem a vida), e era a fonte de seu total desespero... Odiava viajar, por exemplo, pois qualquer lugar no mundo era um lugar qualquer, e como não tinha pra onde ir, nem pra onde voltar, preferia não sair... Preferia não, não tinha condições de sair, de buscar nada, porque sabia que nada havia a ser buscado, e nenhuma saída levava a lugar algum... Além disso, para onde quer que fosse ela se levaria a si mesma, o que não servia de fuga, pelo contrário. Era prisioneira de si mesma e de suas teias.
Era uma mulher-aranha, Aracne, sempre tecendo e tecendo e tecendo, e se protegendo dentro de seus tecidos, de sua teia, criando casulos em volta de si com sua própria secreção. Aracne se protegia da hostilidade ao seu redor com seu próprio corpo e fabricando, ela mesma, essa proteção. A única que podia surtir efeito.
Ela pensava, e pensava muito, em tudo, em todos, em si mesma, na vida... Mas era um pensar a partir de nada, um pensar sem medula, sem esqueleto que o mantivesse de pé... Pensava em tudo que lhe passasse pela cabeça, ou diante dos olhos, ou que lhe entrasse pelos ouvidos...
Mas não era um pensamento com referências, eram pensamentos aleatórios, variados, coloridos, varados de tons, sons, cores, formas diversas... Seus pensamentos nunca formavam uma teoria, mesmo porque ela nunca acreditou em qualquer teoria... Uma teoria exige vínculos, nós, ligações entre pontos, contato... E os pensamentos dela eram impossíveis de ligações, de conexões, de causas e efeitos, de consequências... Seus pensamentos poder-se-iam chamar de puros, solitários, unitários... Cada pensamento era único, desencadeado, sem possibilidade de encontrar um par... Aracne era ímpar em tudo...
Mas sosseguem os empáticos, os sensíveis, os que conseguem colocar-se no lugar do outro, e que estão sofrendo ou preocupados com Aracne e seus desvarios. Pois ela acabou se dando bem, acreditam?
Foi quando se encontrou com Átropos, a Moira, e, enfim, teve seu fio cortado. Abençoada Átropos, que, finalmente, soltou a linha de Aracne, desfazendo sua sina de tecer e tecer e tecer. Não mais fios, não mais teias, não mais Aracne.
Assim terminam, verdadeiramente, todas as histórias reais, como a de Aracne. A de Aracne, a minha e a sua, também.
Eloisa Helena Maranhão

02 agosto 2015

Flauta de Pã

“O harpista largou sua Flauta de Pã e com 
a voz humana cantou suas melodias infinitas”. 
(Borges, "O Aleph" )


Andava pela floresta como quem conhece cada trecho dela; conhecia as curvas dos pequenos e raros riachos, conhecia cada pedra do solo, e as folhas de cada árvore, cada arbusto que crescia nos buracos mais ocultos; conhecia as luzes por entre as folhagens, e as sombras de cada momento do dia; vivia ali, sozinho, desde tempos que não podia contar, e o mais longe que tinha ido era até a orla, naquele limite onde a vegetação escasseava e o descampado se fazia ver.


Naquele dia não andava como sempre, automaticamente, pulando à procura de alimentos, ou apenas sentindo o ar morno na pele grossa e nos cabelos encaracolados; naquele dia procurava bambus, de várias espessuras e tamanhos, sem rachaduras, da madeira mais macia, mas mais resistente também. Na noite anterior, enquanto dormia, havia sonhado; e aquele era o dia de colocar seu sonho em prática.


Sonhara que tocava uma flauta de bambus, amarrados entre si com cipó, uma flauta em forma de um pequeno trapézio; e em seu sonho sua música despertava o que estava adormecido, trazia à existência o que era oculto... em seu sonho tocava sua flauta e todos os seres dele se aproximavam, encantados, e dançavam felizes em roda por estarem trazendo à tona o que jazia submerso nas suas profundezas.


Movido por esse sonho, o deus-menino procurava os bambus que serviriam para fabricar sua flauta, a primeira e única de sua longuíssima existência, que o acompanharia, envelheceria e ficaria escura como sua pele tostada ao sol, a cada ano que passasse.


Reunidos os bambus, depois de experimentar cada som, Pã sentou-se numa pedra da clareira e começou a unir os tubos; tudo estava em silêncio ao redor dele, e apenas sua voz se ouvia na floresta, sussurrando aos deuses, pedindo que conseguisse completar sua missão, dada por eles mesmos em seu sonho.

O ar estava parado, como nuvem sobre a clareira, nenhum animal olhando, era Pã e sua solidão, absoluta; os deuses haviam-lhe voltado as costas, para que ficasse só e construísse o instrumento que serviria para fazer emergir o que cada pessoa tinha de melhor dentro de si; e para isso Pã precisava estar sozinho, sem olhos que o espiassem, sem sons que atrapalhassem seu intento, sem luzes que iluminassem antecipadamente o que tinha momento certo para ser revelado.

Já era noite, e sem lua, quando o deus terminou sua flauta... experimentou os sons dela, mas sabia que o lugar certo era fora da floresta, na cidade dos humanos, e que eles lhe agradeceriam por seu esforço e missão.

Foi caminhando lentamente, contando os passos, sentindo nos dedos a textura da madeira, seus contornos, e antecipando a reação dos mortais quando a tocasse perante eles.

Logo que o sol nascia Pã entrou na cidade; as pessoas saíam de suas casas, as ruas estavam apinhadas, a praça central cheia de gente em seus afazeres; mulheres enchiam cântaros de água, homens negociavam em pequenos grupos, crianças corriam e brincavam entre cachorros, mulas, aves e cabras...

Pã saiu da floresta com sua flauta, parou em frente aos humanos e tocou.

Logo que aquela música dissonante começou a ser tocada, os ouvidos humanos passaram a zumbir, o ar tornou-se irrespirável, as cabeças doíam terrivelmente, e os sons que deveriam remexer as pessoas por dentro, que deveriam ecoar dentro delas, agitou-as por fora, fazendo-as correr desesperadamente.

Em pânico puseram-se em fuga da presença daquele deus híbrido, metade homem metade cabra, aquela figura tosca que lhes despertava as consciências; atropelavam-se até caírem exaustas, gritando e tapando os ouvidos, enquanto Pã olhava surpreendido, sem entender por que motivo os mortais tinham tanto medo de ouvirem a si próprios.

Eloisa Helena Maranhão

13 julho 2015

Mar oceano


"Contar-se-á talvez, um dia, que também nós,
marchando para o oeste,
esperávamos atingir uma Índia, - mas que
o nosso destino foi encalhar perante o Infinito?"
(Nietzsche)

“Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?”
(Vasco Gato)


Conta-se que naqueles dias o sol nunca deixava de brilhar. Alaranjava as águas do Mar Oceano, avermelhava ao meio-dia, amarelava levemente quando era inverno... Mas não se punha nunca, o sol. Quem saísse a singrar naquelas águas havia de estar preparado, e não se queixar das dores de cabeça, nem da sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia. Sempre era dia. Ainda não havia noites, ali.


Ele não tinha perna-de-pau. Nem olho-de-vidro. Nem cara-de-mau. Pelo contrário, tinha olhos tranqüilos, fluidos, de longos cílios negros, que olhavam com doçura. Mas era pirata. Dos bons. Ou melhor, dos maus. Hão de ser maus, muito maus, os piratas. Até o próprio nome – bíblico – havia mudado. Escolhera uma letra que o identificava naqueles mares.

E passavam por ele navios, e aviões que o sobrevoavam, e naus e embarcações de todo tipo, e os navios maiores que faziam cruzeiros eram os que mais o enchiam de espanto e furor. Aquela gente toda sem saber para onde ia, dançando nos convés, nadando nas piscinas, refestelando-se em jantares cujas sobras jogavam no mar, que nem para os peixes serviam, estavam já podres. E quantos náufragos boiando ficavam por ali, acompanhando os navios com seus olhos famintos, tentando sobreviver dos restos. Atirava com seus canhões, queria afundar aqueles navios abarrotados de gente inútil.

Ninguém via os escombros todos por baixo da superfície. Nem sentiam o cheiro da podridão dos navios. Não notavam as manchas de óleo no mar. Nem os navios fazendo água. Do ninguém exclua nosso pirata. Ele sabia.

Passava a vida navegando e escrevendo. Era pirata escritor. Vivia de naufragar navios oficiais, dos saques que conseguia roubar das caravelas apinhadas com ouro e prata das Américas, das moedas e patacões que readquiria dos corsários, sempre tão bem remunerados, com suas cartas de reis e rainhas. 

Escrevia e lançava ao mar. Em garrafas arrolhadas, ou soltas ao vento, suas idéias e palavras eram lançadas ao mar. Sempre haveria quem as encontrasse e aí poriam brotos dentro desses, terreno fértil para palavras e idéias de um pirata sonhador.

Conta-se que, por vezes, sua caravela ia apinhada de gente. Toda sorte de gente encontrada naqueles mares, e eram náufragos, e eram putas procurando outro destino, e eram pobres e condenados do continente procurando a América e as ilhas do Pacífico, e eram escravos jogados pelos navios negreiros ainda com resto de vida, e eram velhos sem destino, abandonados, e eram crianças também abandonadas ou fugitivas, e eram amores passageiros, mas que pareciam duradouros, e eram amores duradouros, pelos quais não se daria um tostão, de tão instáveis que pareciam.

Mas por outras vezes sua caravela, navio-fantasma, vagava solitária, como solitário ele estava, sem ninguém, e sem comida, e sem água, e sem pássaros que o acompanhassem, e sem lua nem estrelas. Ainda eram tempos sem noite, aqueles. Ele suportava o sol e a solidão, sem opção.

Sempre escrevendo, em quantas línguas soubesse e inventasse, vai que alguém que não sabe língua nenhuma, ou que, de tanto sabê-las, esqueceu-as, e elas já não lhe fazem sentido, vai que esse alguém encontra sua mensagem e entende. Vai que alguém no Mar Oceano precisa dessa mensagem em alfabeto inventado. Urgia encontrar esse alguém.

Ela não tinha nome. Colocavam-lhe os nomes que queriam, quando passava em sua jangada perto das praias. Atracava, pegava água doce, consertava a jangada, passava uns tempos na terra e voltava ao mar. 

Era jangadeira. Nascera em terra firme - era o que diziam -, mas tinha-se lançado ao mar desde que notara que a terra não trazia segurança alguma. 

Conta-se que, quando notou que também o mar não era garantido, era tarde. Já estava ao sol, pele ressecando a cada dia, o suor salgado escorrendo na boca sedenta. Não se queixava. Não tinha opção. Navegar é preciso, viver não é preciso. Bendita Escola de Sagres, que constrói embarcações e sabe que navegar é preciso. Lançou-se a navegar.

Era tudo que sabia fazer. Ou que precisava fazer. Navegar. Manter-se flutuando, mesmo que à deriva. Aprendeu a fazer jangadas, pois caravela era coisa de corsários, tripulação oficial ou piratas. Não era uns nem outros. Era jangadeira. Nem nome tinha.

Também recolhia náufragos, putas, loucos, pobres, condenados, velhos, fugitivos, cães sarnentos e gatos doentes em sua jangada, que logo deixava nos portos, ou em outras embarcações que a abordassem. Não sabia o que fazer com gente. Não gostava de seguidores. Nem de seguir. Melhor que cada um encontrasse seu caminho. Ou inventasse um. 

Tocava flauta andina embalando-se a si mesma, e atabaque para espantar os peixes grandes, os tubarões que se aproximavam perigosamente da jangada, índia e negra de cultura iletrada, só sons, se fizeram dentro dela. Cafuza dos mares.

Nem sabia a urgência que sentia de uma mensagem, quando achou uma garrafa com um papel dentro. Abriu e leu. Não estava em língua nenhuma conhecida, mas ela leu. Aquela era sua linguagem, que havia inventado há tanto tempo, para se comunicar consigo mesma. Tudo que escrevia era tentativa de falar consigo, e depois virava fogueira para assar peixes. Papéis serviam para isso, assar peixes saborosos. Ou virar colagens para enfeitar a jangada. Jangada colorida era essencial.

A mensagem tomou conta dela. Falava dos navios oficiais, dos jantares desperdiçados, e de pirataria, e dos escombros que ninguém via – só ela -, e do cheiro de podridão do Mar Oceano. Ela também sentia aquele cheiro, e vagava no meio daqueles escombros. Tinha passado a vida tentando manter-se à tona, desviar deles, e ajudar náufragos.

Outras mensagens chegavam à jangada. Tornou-se emergencial ler aqueles textos, respondê-los, saber de onde vinham. Era sua língua, desconhecida de todos, mas alguém sabia! Quando se tornou aléxica de tanta palavra que tinha dentro de si, de tanta leitura, perdeu a capacidade de se comunicar, e nem mais lia e nem conseguia escrever, também, e nem falar, tudo que soubesse a linguagem perdeu o sentido, e era uma surda-muda-analfabeta solta no Mar Oceano, e nem sinais já conseguia reconhecer, e quanto mar havia para entender, mas estava sem significação alguma. 

Aquelas mensagens restituíram nela a leitura e a compreensão do mundo. E a escrita. E a fala. Sentiu novamente a urgência da comunicação.

Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele. Que tinha costas largas e braços compridos bons de abraçar, peito firme que dava sustento a uma cabeça cansada de navegar.

Ele continuou pirata. Ela manteve-se jangadeira. Mas tinham-se um ao outro, agora. Isso bastaria por uns tempos. 

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois. 

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.

Eloisa Helena Maranhão

09 julho 2015

Bibi, a sabida.

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas,
mas ao tocar uma alma humana, 
seja apenas outra alma humana." (C. G. Jung)


“Nossa, que criança mais sabida!”, diziam todos que ouviam aquela menina tão pequena falar. Despertava admiração – e mesmo inveja – nos adultos, jovens, idosos, adolescentes, outras crianças e até nos bebês, caso esses também pudessem falar.

E assim nasceu Bibi – não, não nasceu da admiração e/ou inveja dos que a conheceram, claro que nasceu antes, alguns anos antes de começar a falar e mostrar sua inteligência afiada, suas frases “espirituosas” – mas nasceu o apelido da menina, Bibi. Poderia ter sido Sassá, Dadá, mas parece que gostaram mais da sílaba do meio – bi – e foi assim que a menina se tornou Bibi. Pra simplificar pros mais simples: sa-bi-da, Bibi.

Pois bem, humanos, notamos, aí, que inteligência, perspicácia, e, mais tarde, uma ampla cultura nunca faltaram a Bibi. Lia de tudo, bulas de remédio, rótulos de garrafas, sabia “de cor” a fórmula da coca-cola, todos os ingredientes e substâncias químicas daquela bebida cancerígena (o que não a impedia de se encher de coca-cola e nem se importar que desse câncer, ou engordasse, ou qualquer outra coisa, os vícios são assim mesmo), lia cartazes nos postes, e seus preferidos eram os que mostravam os procurados pela polícia, os “terroristas” tão inimigos da Pátria e dos bons brasileiros. Claro que, mais tarde, pôde entender que quem, realmente, tocava o terror era o Exército, as polícias, enfim, os militares, mas isso só mais tarde.

Sim, só conseguiu entender mais tarde algumas coisas – muitas delas – coisas que não compreendia na infância, apesar de muitas outras ela não ter entendido nem quando jovem, ou adulta e nem velha, por que muitas coisas Bibi nunca conseguiria entender. Sim. Bibi era muito inteligente, culta, perspicaz, intelectual, como já expliquei no começo pra quem não é tão perspicaz quanto ela, e, porventura, venha a ler essa história. Mas Bibi não entenderia, nunca, muita coisa, não por falta de inteligência, mas por falta de um emocional capacitado, funcional, digamos, que isso a menina (ou a velha, a jovem, a mulher) não teve, mesmo.

Em outras palavras, era uma superdotada intelectualmente, e uma deficiente emocional. Reparem que não coloquei “mas” deficiente, e isso foi proposital, porque ser muito inteligente não se opõe a ser muito incapaz emocionalmente, pelo contrário, às vezes até andam de mãos dadas, como em Bibi. 

Bibi tinha o pensamento super organizado. Era lógica, lúcida, extremamente racional. Mas o emocional de Bibi era caótico, sem organização alguma. Seu pensamento organizadíssimo não dava conta do que fazer com suas emoções descontroladas, seus humores instáveis.

Essa deficiência emocional sempre foi um atrapalho na vida da Bibi. Até mesmo quando, já adulta, ou passada de adulta, ali pela segunda idade e meia, ela precisou fazer psicoterapia, e isso dificultou, ou mesmo impossibilitou, sua psicoterapia e/ou análises.

Explico de novo aos menos sabidões, pois não sou como Bibi quando criança, impaciente com os menos capacitados intelectualmente, com tolerância zero para ficar explicando demais.

Pois explico, então, até desenho se for preciso – ser muito inteligente atrapalhou nas terapias de Bibi, pois quem a tratava, ou terapeutizava, ou dela cuidava psicologicamente sempre partia do princípio que intelectualmente se resolvem problemas emocionais, ou que, entendendo-os intelectualmente, resolvê-los fica mais fácil, ou simples, ou alguma coisa assim, e que, portanto, Bibi tinha amplos “recursos”, muito mais que as pessoas, ditas comuns, para trabalhar seu emocional, para se entender, para se conhecer.

Ledo engano, humanos, pois por ser tão deficiente emocionalmente, burra mesmo, talvez até retardada (como diriam os não politicamente-corretos), por ser tão retardada emocional Bibi não conseguia se conhecer nem ser curada (ou, pelo menos, tratada, melhorando seus sintomas), já que seu problema principal não vinha de falta de inteligência, mas de incapacidade de lidar com seu emocional.

Emocionalmente era uma criança. Sentia como criança, agia como criança. O que não impedia Bibi, ou justamente por isso, de falar quase tudo de si mesma e dos outros, pondo o dedo no cerne, nas feridas principais. Expunha tanto que era considerada inconveniente, além de extremamente lúcida, crítica e fria. Mas essa frieza não era verdade (ao menos, não a verdade dela, já que há tantas verdades quanto pessoas julgando ou tentando entender alguma coisa). As versões são várias, diversas, e vence quem conta a melhor história. Olha eu aqui, quase falando como Bibi.

Essa pretensa frieza, lucidez e excesso de crítica eram as defesas dela. A única defesa de Bibi era se mostrar tanto, viver tão nua, que ninguém a enxergava, realmente. E ela não queria ser enxergada realmente (seja lá o que for o real), porque vivia revirada de dentro pra fora, as vísceras expostas, os órgãos internos expostos, e até os olhares doem, para quem vive nessa situação de desumanidade. 

Se mostrar demasiado para se esconder, portanto, era sua defesa e condenação. Porque, na realidade (sim, humanos, na dela, pois realidade é como verdade, múltipla, variada e tal), Bibi era julgada de acordo com os a priori daqueles que a julgavam ou analisavam (claro, que todos fazemos assim, mesmo), mas Bibi não se encaixava ou não tinha como ser encaixada neles, por mais que tentassem e conseguissem. Sim, eles a encaixavam nas suas teorias, mas dava erro, pois ela não era passível de ser encaixava, ela não funcionava de acordo com as teorias. Pelo menos, não as mais conhecidas e aplicadas.

Por exemplo, a busca do prazer e da felicidade. Isso nunca tinha sido, para Bibi, sua motivação, consciente ou inconsciente. Bibi não buscava felicidade nem prazer a qualquer custo, porque felicidade é uma abstração, construída, que nem todos perseguem. Bibi não perseguia. Ela não ligava para ser feliz, e, mesmo, tinha certeza que felicidade não existia. 

Ela queria viver em paz, queria sossego (Bibi e o Tim Maia), queria não ser. Sua busca era por uma existência que gastasse o mínimo de energia psíquica, que a economizasse. Por isso sua frase preferida era “me poupe”. Não me gaste, porque eu também não quero me gastar, pensava Bibi. Já o Tim Maia eu não sei, creio que ele era do tipo de se gastar muito, queimar até o último pedacinho de vela. 

Outra coisa era isso de "re-significar o passado". Bibi não sabia como nem por que re-significar o passado (nem qual passado era ou não re-significável). Isso de dar outra significação ao passado, à luz do presente, lhe cheirava a fraude. O passado tinha sido ali, à luz dele mesmo e de quem era na época, tanto Bibi quanto os outros, e não havia como compreendê-lo à luz do presente, do que se era no hoje, sem fraudá-lo, falseá-lo.

Ela se lembrava de Marx, para quem “a história acontece como tragédia e se repete como farsa." Para Bibi, inclusive a história pessoal, individual, só podia ser repetida como farsa, pois que já a tinha vivido, e ela nunca se repetiria na realidade, mas apenas enquanto objeto a ser compreendido de outra forma. E quem garante que a compreensão atual é melhor que a do passado? E, mesmo que fosse (ou seja), quem pode garantir que re-significar o passado não seja fraude, já que ela sentia o passado (ou cada momento que vivera) como o único possível de ser vivido, o único que foi possível dentre tantas outras possibilidades? De que adiantava rever, alterar, dar outro significado a um passado que só foi realmente “fato” ali, naquele contexto? Sim, Bibi sofria de excesso de contextualização histórica, mas isso é outro assunto.

Outro problema que enfrentava nas suas psicoterapias era que Bibi não conseguia achar que alguém poderia saber mais que ela sobre ela mesma. E era muito criticada por isso, sendo acusada de se achar super poderosa, de ser arrogante, de não ouvir o que lhe diziam a seu respeito. Mas tenhamos um pouco de compreensão sobre Bibi, até mesmo de compaixão (pois era só disso que ela precisava, realmente), e tentemos entender que ela se conhecia a si própria (ou achava que se conhecia, o que, na prática, dá na mesma), e que esse seu conhecimento era profundamente intelectual, assim como o conhecimento que os teóricos das psicologias podiam ter sobre ela. 

Bibi precisava de outro conhecimento, de um conhecimento emocional, de empatia, de compaixão, de compreensão, e não de ser conhecida intelectualmente. Também lhe falavam a respeito disso, censurando-a, quando ela reclamava que não se sentia tratada pelos terapeutas; eles diziam: “mas nós pensamos tanto sobre você, você é muito pensada.” Oras, pensar em mim eu mesma penso, pensava Bibi, de saco-cheio de tanto pensamento (inclusive gramaticalmente nessa frase, que, se Bibi lesse, ficaria irritada. Mas ela nunca vai ler isso, e no fim você, que está lendo, vai saber por que).

Bibi era tão radical (não vou chamá-la de chata, que ela ficaria triste se lesse isso), pois era tão radical que reclamava mais ainda quando ouvia essa coisa de “ser pensada”, mas que merda de tanto ser pensada e de pensar que esse povo terapêutico tem? Desde quando se faz terapia à distância, pensando nos pacientes? Quando foi que inventaram a psicoterapia telepática?

Mas tanto quanto ser pensada, ser chamada a re-significar o passado, ser encaixada em teorias que não lhe diziam nada (mesmo porque as teorias eram deles, do Outro, e só serviam para diagnosticar, e não para tratar), mas tanto quanto tudo isso, incluindo a intelectualidade dos terapeutas e o exibicionismo deles, Bibi não suportava a raiva deles sobre si. 

Sim, pode ser que ela fosse realmente uma sem-rumo, sem-noção, sem-futuro e sem-tudo-ou-qualquer-coisa, mas suportar uma raiva que ela sentia como lhe sendo dirigida; suportar uma raiva que ela achava que lhe era dirigida por que era inteligente e, portanto, achavam que ela não entendia por que não queria, a ponto de chegarem bem perto dela e quase gritarem, “mas eu estou falando do pai, criatura, não da mãe!”, pois suportar essa raiva era impossível para Bibi, que se deprimia, ficava absolutamente sem chão e sem teto, e decidia abandonar o que lhe causava mal. 

E como, aqui, estamos falando de Bibi e seus sentimentos, e não dos terapeutas e das teorias deles, então o que Bibi achava e sentia era a verdade – a sua verdade. E aqui, portanto, fica a versão dela, não a dos outros.

Pra simplificar as coisas, vou fazer uma lista de algumas coisas que Bibi não precisava (nem na terapia nem no relacionamento com quem quer que seja). Bibi não precisava de: intelectualismo, exibicionismo, perda de tempo (dela mesma nem dos outros), defeitos esfregados na sua cara – pois ela, mais que ninguém, conhecia muito bem seus defeitos, erros, falhas, crimes e pecados, e ela também sabia que isso todo mundo tinha, não só ela. 

E aceitava cada um como era, sendo, daí, chamada de excessivamente indulgente, de muito condescendente, de não exigente, e era um tal de fazê-la achar que precisava ter “amor exigente”, o que, para ela, era um contrassenso, pois amor é incondicional – tinha aprendido isso com o cristianismo, e gostado – e amor não exigia nada, mesmo, e cada um amava a quem queria, ou podia. Ela era assim, o amor que sabia ter era assim, e também era muito horrível ouvir dos humanos que mães assim, sem exigências nem limites, fabricavam filhos psicóticos. Ou não, que a responsabilidade era do pai, que não tinha sabido fazer o corte edipiano – como se tudo se encaixasse na triangulação edipiana, e na teoria psicanalítica, e na família burguesa – sim, mesmo que fosse uma teoria psicanalítica revista, seja por Klein, seja por Lacan.

Só que Bibi não procurava terapia para ser perfeita ou santa, mas sim para... Para quê, mesmo?

Aqui vamos fazer a lista do que Bibi procurava nas terapias, terapeutas e nos demais humanos que habitavam o mesmo planeta que ela, sendo indiferente que fossem mesmo humanos ou ETs, já que aqui estavam e aqui viviam. 

Lista das necessidades de Bibi: sossego, tranquilidade, paz (e essas três coisas significavam: pouco ou nenhum barulho, incluindo músicas, pouca ou nenhuma luz, incluindo a do sol; ou seja, pouco ou o mínimo de estímulos exteriores, já que sofria de excesso de estímulos internos); acolhimento verdadeiro que, para ela, significava ser compreendida emocionalmente e ser aceita com seus erros, defeitos, pecados e crimes, desta e de outras vidas passadas (caso existissem, mas era bom já incluir tudo). Tolerância, num mundo onde a tolerância era tão prestigiada, mas quem realmente era praticada era a intolerância, e essa necessidade de mudar o Outro. E acima de tudo, nas suas terapias, Bibi precisava que os terapeutas, mesmo que não fossem junguianos, tocassem sua alma com a alma quente deles, não com seus intelectos frios – e também que não ficassem querendo que Bibi revisasse toda sua vida, mudasse de rumo e se “reeducasse”.

Isso de reeducação era uma pedra no sapato, um tiro no peito, um soco no estômago, uma injeção na testa. Se reeducar para quê, por que, e, acima de tudo, sob quais critérios? Se adequar? Adaptar? Ser socialmente aceita? (Isso poderia ser dito há décadas atrás, quando a psicologia se prestava a isso). 

Foi exatamente isso que as religiões fizeram (e fazem), adestrando humanos para viver numa sociedade completamente doente, enlouquecida. E só quando todos forem iguais é que os religiosos podem ter sossego, porque cada um que escapa ao adestramento é uma ameaça à fé que possuem. Esse é o princípio da evangelização, da catequização, da tentativa de converter quem pensa diferente às suas crenças, o princípio da propagação das crenças. Esse é o princípio não só das religiões, mas das filosofias ou psicologias (e, inclusive, das loucuras) – todos têm que aceitar seus a priori, sob pena de ver tudo lançado no fogo ou ao chão, caso não lhes deem sustentação coletiva. 

Isso no passado das psicoterapias. Mas no hoje, diziam que ela precisava mudar para que não sofresse tanto. Para ser feliz. Volta, aí, a questão da felicidade, e entra, junto, a do sofrimento. 

Ser feliz, Bibi não se importava mesmo, nem tanto por achar que não era relevante, mas por sentir que não conseguiria ser feliz nunca. E sofrer menos, como? Bibi não conseguia imaginar que viver num mundo como o nosso, com tantos problemas, tanta loucura de tudo que é tipo, um mundo caótico, despedaçado, em vias de extinção pelo próprio humano, um mundo poluído, ferrado, destruído, desigual, injusto, cruel, violento – e, aí, entravam questões não só naturais, mas também, claro e principalmente, as culturais –, pois num mundo como esse era impossível não sofrer. A menos que se fosse completa e totalmente fora da realidade, ou imbecil (ou se fingisse muito ser), ou psicopata. 

E Bibi não conseguia sair totalmente da realidade (ainda não tinha conseguido, mesmo que tivesse chegado perto, sobrando-lhe, portanto, e apenas, sair da realidade literalmente, se suicidando), não era psicopata, sem empatia com nada nem ninguém, não era imbecil e também não conseguia fingir, por que a farsa era muito clara, óbvia de se ver, e facilmente desmascarada (caso se encontrasse sob máscaras, o que a cada dia acontecia menos). A farsa já não tinha como se esconder, ao menos para Bibi; era impossível não vê-la, não ouvi-la, não cheirá-la, não senti-la em toda sua pestilência. 

Resultado: Bibi sofria, sim, não era feliz, mesmo, e nem queria sê-lo (mesmo que conseguisse, o que não era o caso). Não sabia ser feliz sozinha e nem desejava isso. Tudo lhe doía, tudo lhe afetava, as pessoas, os bichos, a natureza revolvida, tudo era ela, e ela era tudo. Fim. (Por enquanto e desse assunto).

E não era só o passado que era um problema, mas o tal do futuro também. Bibi não conseguia imaginar um futuro (a menos que fosse uma distopia). Quanto mais vivia mais tinha certeza que futuro não existe, e que a filosofia de Sartre, segundo a qual "o homem existe porque se lança para o futuro, projeta-se conscientemente no futuro" era uma bobagem, já que ela não via futuro nenhum em nenhum lugar. Sartre só serviu pra fazê-la descobrir por que não existia (como ela sempre desconfiara). Ela não existia porque nunca tinha visto futuro nenhum para se projetar. 

Ora, que tão pessimista é essa Bibi. Sim, pensava e sentia ela, pode ser que amanhã seja um novo dia. E será – para quem estiver vivo. Mas há novos dias que são piores, muito piores, que os dias anteriores. Era tão problemática, (ou sem ilusões?), a Bibi, que acreditava em qualquer coisa ruim para o futuro; quanto ao passado e presente não precisava acreditar, por que era só ver o que aconteceu ou estava acontecendo.

Bibi sentia que tudo era instável, profunda e totalmente instável, desequilibrado, que tudo era diferente a cada segundo, e que, portanto, tinha toda razão de ter medo. As pessoas não tinham noção de como tudo era apavorante? De como tudo era muito, muito frágil, muito rápido, muito fugaz, e só o instantâneo existia e, puf, sumiu? Pois Bibi sentia até o enjoo de estar sobre um planeta rodando muito rapidamente, de estar sobre um planeta formado por magma fervendo e borbulhando, e estar sobre uma casquinha muito frágil de algo sólido em cima de placas tectônicas deslizando, e tudo caminhando, também muito rapidamente, para o fim, ou para o buraco.

Sim, humanos que me leem e tentam (ou não) compreender Bibi, “Bingo!”, pode ser que digam alguns de vocês, “esse é o problema de Bibi, a morte.” Ledo engano. A morte era a solução de Bibi, a única saída real desse caos todo em que vivia, e a única razão dela continuar viva era estar sempre perto da porta. Ela sempre se postava perto da porta, para que pudesse escapar quando necessário – ou quando fosse insuportável continuar, o que dá na mesma. 

Sim, humanos, ela tinha medo. Sim, ela estava sozinha, profundamente sozinha, e tinha consciência disso. Sim, ela estava desesperada. E sim, ela não sabia como vai ser amanhã. Assim como todos vocês, assim como todos nós, Bibi também não sabia fazer aquilo que todos não sabemos fazer, mas tentamos ou fingimos (o que, pelo menos, funciona). Como Bibi tinha extrema consciência da fragilidade de tudo, inclusive das invenções que fazemos para tentar sobreviver, e ser feliz, e sofrer menos, e, e, e, Bibi não era funcional.

E, por se saber não funcional, por saber que nunca se adaptaria a esse mundo, que sempre vivera na tangente, pendurada sobre o abismo, e que a qualquer momento poderia ser centrifugada da vida, Bibi sabia, sim, que a morte era a única salvação. E por isso, sempre tinha avisado que ia vazar. O que a maioria não levava a sério, pois pensavam que cachorro que late não morde. Mas Bibi sabia que cachorro que muito late, morde. Mais cedo ou mais tarde, ele morde. O latido é só um aviso, "eu vou morder, sim".

E Bibi viveu latindo, até que vazou. Soltou a linha. Por isso eu disse no começo, humanos, que ela não leria isso aqui. Porque Bibi não é mais. Foi, não gostou, e deixou de ser, como convém a quem, realmente, busca o não sofrimento. 

E para os que ficaram com pena, com um sentimento de “oh, ela vazou, mesmo”, pensem que, no fim, o que sobra são as histórias, como esta aqui. Somos todos, apenas, histórias. Contos, crônicas, romances, lendas – alguns, mitos. Mas somos, todos, histórias, no final.

Essa é uma das de Bibi, a sabida.

Eloisa Helena Maranhão 

02 junho 2015

Meu passado é um morador de rua.



"E quando te perguntarem sobre seu passado, 

simplesmente responda: eu não vivo mais lá."

Meu passado é um morador de rua. Não resolvo nada, não fecho portas, também não mantenho janelas abertas, dou as costas para ele e vou embora pro futuro. Não coloco ponto final, exclamação nem interrogação, finjo que ignoro e passou. Nem reticências, que dali não vai haver continuidade. Devia existir um ponto pendurado, um sinal tipo um ganchinho para baixo da linha. O ponto sobre o abismo.  

Abandonei meu passado ao relento. Com todos seus personagens, fantasmas, zumbis, pulando, gritando, gargalhando, chorando desconsoladamente, se arrastando pelo chão. Meu passado é um miserável morador de rua que só tem uma cadelinha vira-lata pra lhe fazer companhia. E gorda, de tanto comer os restos que meu passado largou pelos caminhos.  

Eu gosto de olhar pro passado. Estudei história. Mas o passado é o que é, é o que foi. Fatos acontecidos, sentimentos sentidos ali, naquele lugar. Não serve mais para hoje, nem pode ser encaixado num futuro, sob pena de tornar-se um Frankenstein. O passado não permite re-significações, falsas atualizações à luz do presente, ou com vistas a um pretenso futuro.  

Não tentem mexer no meu passado. É como tentar reformar ou restaurar uma pirâmide milenar. É mais fácil transformar tudo em escombros, esfarelar tudo em pó, criar um monstro desconjuntado. Por que é um passado tão frágil.  

Meu passado é um sem teto, no frio, na chuva, no sol, no calor intenso. E só quer ficar quieto sob qualquer marquise. Deixem que ele descanse tranquilamente.
Eloisa Helena Maranhão.

Lobo-Guará


“Olha esse sorriso tão indeciso
Está se exibindo pra solidão
Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão”
(Los Hermanos)

Era verão e o ar estava muito seco. Havia poeira flutuando, carregada pelos ventos, e mesmo depois das chuvas torrenciais o ar voltava a ficar abafado e o calor, imenso.

O lobo caminhava com suas pernas altas pelo cerrado, respirando com dificuldade, sem vontade de caçar nem comer. Escondia-se no meio da pequena mata de pequizeiros, cansado, enfastiado de existir, e então se transformava em homem.

Seu pelo da cor do caju eram agora cabelos avermelhados caídos em cachos sobre os ombros do xamã já não tão jovem, mas cuja idade era indefinível. Quem o olhasse poderia lhe dar vinte ou setenta anos, dependendo de como quisesse aparecer, como velho ou jovem. Só os olhos se mantinham iguais, no lobo ou no homem, da cor de um mel amarelado, com as pupilas rasgadas. Como lobo ou como homem era estranhado pelos que o fitassem nos olhos, pois o lobo parecia homem, e o homem, lobo.

Não era totalmente lobo entre a matilha, nem totalmente homem entre os seus, e se sentia extremamente só. Era um estrangeiro onde quer que se encontrasse, e só se sentia razoavelmente à vontade no cerrado, correndo atrás de um coelho ou alguma ave terrestre, ou pescando e assando seus peixes e matando a sede nas cachoeiras.

Mesmo que os outros lobos respondessem aos seus uivos noturnos e que os espíritos dos arbustos retorcidos, toscos como eles, ouvissem suas rezas e lamentos, ele estava só. Era estrangeiro em terra estranha e não tinha casa. Nunca se lembrava de ter estado num lugar em que pensasse “estou em casa”, ou “aqui é meu lugar”. Nem como lobo nem como homem havia alguma vez repousado a cabeça num lugar que pudesse considerar seu. Era estrangeiro. E estava só.

Às vezes juntava-se à matilha, corria em bando, dividia pedaços dos animais caçados, mas não era um lobo. Aproximava-se de algum grupo de humanos, cantava à noite para eles, contava histórias ao redor do fogo, curava suas doenças, dormia em seus abrigos; era xamã e sabia exercer seu ofício. Mas não era um humano.

Estava só e era estrangeiro. Sabia uivar e sabia falar e assobiava como os pássaros e sibilava como cobras, coaxava como sapos no brejo e miava como onça. Mas não era onça cobra sapo pássaro lobo nem homem. Era tudo ao mesmo tempo, e esse tudo o fazia nada. Era estrangeiro em terra desconhecida. Nem preciso dizer que estava só, por que você já entendeu.

Conhecia a terra do cerrado e cada planta, cada flor em sua época de florir, cada animal, cada pedra, cada rio e cada gota d’água das chuvas. Conhecia os ventos, do inverno e do verão, e de onde vinham e para onde iam, e as fases da lua, e o mover do sol e das estrelas no céu. Conhecia os espinhos dos pequis e as cores das flores dos ipês, e conhecia os caminhos, as trilhas escondidas, as estradas abertas. Conhecia os espíritos dos vegetais e sabia fazer remédios e venenos com eles. 

Sabia escolher as fibras e tecer suas roupas e a madeira melhor para suas armas e instrumentos. E curtir o couro com quina e cavar canoas em troncos. Conhecia os cheiros do sangue e do suor dos animais, de cada espécie, e os barulhos e os silêncios todos. Podia nadar ou andar quilômetros de olhos fechados quando o sol ardia demais ou era noite sem luar. Nada lhe era desconhecido.

Mas era estrangeiro em sua própria terra e desconhecido de todos. Conhecia tudo e não era conhecido por nada nem ninguém.

Era um lobo-guará de pelos avermelhados e olhos cor de mel que se fazia xamã com cabelos cor do caju caindo em cachos pelos ombros e olhando o mundo enfastiado, com olhos cor de mel. Tão enfastiado que não sentia vontade nem de comer. Sentava-se, então, debaixo dos pequizeiros, e transformava-se em lobo. Cansado de ter só o sol e a lua por companhia

Continuava estrangeiro em terra estranha

E estava profunda e completamente só.

Eloisa Helena Maranhão.

30 abril 2015

Professor não é o problema. O problema é a gestão da Educação (ou, dando nome às moscas e à merda).



Professores brasileiros são, sim, muitíssimo mal pagos. E não me venham com "professor até ganha muito pelo trabalho que faz", porque a esmagadora maioria dos professores trabalha muito e se dedica muito. Há, sim, professores incompetentes (como em todas as profissões, principalmente na política) e mal formados (e, nesse caso, é um problema circular, porque professor mal pago forma outros mal pagos, e os bem formados procuram outras profissões menos exaustivas, estressantes, e mais bem remuneradas).

E quem acha que qualquer um pode ser professor, e gostaria de ocupar o lugar deles, vai lá, tenta, passe um ano da sua vida dando aula, e depois venha conversar sobre isso.

Professor, no Brasil, ganha menos que a maioria das profissões de nível técnico (médio), e trabalha muito mais. Comparem os salários dos professores (e da Educação em geral) com os salários dos funcionários do legislativo e do judiciário, por exemplo. Ou das grande empresas nacionais e multinacionais. E pensem, também, em quem formou a mão-de-obra e os proprietários dessas empresas. Não foi um(a) professor(a)?

E, além disso, professor aguenta uma estrutura de ensino arcaica, incapaz, ineficaz, ineficiente, e, pior que tudo, GERIDA, INTENCIONALMENTE, PARA NÃO FUNCIONAR. 

Não interessa, às elites, a educação popular, o ensino público e gratuito. O interesse das elites é gastar (o dinheiro da população, produzido por ela, e pago por ela, em impostos, etc) nos seus próprios investimentos, que lhes dão lucro. Educação, saúde, habitação popular, etc, que fiquem às moscas. Afinal, as elites veem os trabalhadores como moscas.

Portanto, gestores da Educação (e não estou falando dos diretores de escola, nem dos coordenadores, nem das secretárias, apelidados, atualmente, de "gestores", mas sim dos PREFEITOS, GOVERNADORES, SECRETÁRIOS DA EDUCAÇÃO, MINISTRO DA EDUCAÇÃO E PRESIDENTA), portanto, senhores, sejam mais sensíveis, mais sensatos, e invistam, realmente, na EDUCAÇÃO PÚBLICA, DE MASSAS E GRATUITA.

Mas não com medidas paliativas, manipuladoras e populistas. Mas botem a mão na merda - política, pedagógica - que os senhores mesmos fizeram. E, como disse Chico César, "não aponte o dedo pra Benazir Bhuto, seu puto, que ela está de luto pela morte do pai". E todos nós, professores, estamos de luto pela morte de nossa mãe, da mãe de todo o povo, a Educação.

Façam sua obrigação de gestores, senhores. Ganhamos nós - o povo, ganham vocês - políticos, e ganham as elites, inclusive, porque povo mal educado, mal formado, mal pago, transforma o país num barril de pólvora.

Vocês querem, realmente, ver o barril estourar?

Eloisa Helena Maranhão.

09 abril 2015

Empalando urubus

“E se, de repente, a gente não sentisse a dor que
a gente finge, e sente? (Chico Buarque)

“Cagados de todo o mundo, uni-vos.”
(paráfrase de Karl Marx)

Era uma personagem portinariana, assim de um jeito esquálido, desengonçado, barriguda, cabelos desgrenhados. Andava pelas ruas de terra num vestido de chita colorido, amarelo, vermelho e verde, com uma sombrinha preta. Para combinar com o urubu, daqui a pouco.
Nunca chovia no sertão, não carecia de sombrinha para o sol, também, por que já tinha os miolos moles. Tinha dormido muitas vezes com o rosto descoberto, banhado de luar; tinha, também, bebido água de poços profundos, contaminados com água de outros lençóis subterrâneos. Todos sabem que lua sem véu e poço estrangeiro prejudicam os miolos. Miolos perfeitos exigem véu, muita sombra e o conhecido, nada de estranhezas. Ela era uma prejudicada.
Virou retirante da humanidade, andarilha, sem eira nem beira, empinada em cima das sandálias altas. Há que ter saltos altos, muito altos, os com prejuízo. Seus olhos perscrutavam horizontes outros, procuravam as fontes estranhas que alimentavam o poço na aridez. De tanto beber em poço e mirar aquele sem fim, ficou também, sem fundo nem chão. De vestido, sandália e sombrinha, o essencial, nem calcinha usava. Uma pura, básica, só de lua poço sol. Sem véus nem sombras.
Sem raízes, solta no espaço, assim de um jeito desengonçado, se equilibrando nos saltos, com auxílio da sombrinha.
De tanto ser retirante, mesmo contra a vontade, que, olha!, nunca pensou assim, vou sair por aí, cair no mundo perambulando, mas virou andante, perdida de tanto se retirar. Não tinha mais pra onde ir, pra onde voltar, caminho traçado, rota fixa, nexo, senso, norte. Uma sem noção. Se era sol ou era vento, temporal ou calmaria, pouco se lhe dava, se fiava só em si, vivia de dentro pra fora, exalando-se a si mesma. Suava, peidava, arrotava, recendia mau cheiro. Fedia de empestear.
Não era de estranhar que vivesse seguida por urubus. Tinha uma fieira deles sobrevoando-a por onde fosse. Era a rainha dos urubus, a deusa das aves funestas. Só pescava em curva de rio. Sua sombrinha vivia coberta de merda dos urubus, parecia craca, a merda seca. Uma nau sem rumo, casco invertido, grudada de cracas afiadas, singrando seu bodum pelo oceano. Retirante.
Nunca encalhava, passava ao largo e por cima dos esqueletos, cabeças de vacas, cactos secos, raízes expostas, pedras nem se fale, de todo tamanho, tropeçava, caía de se esfolar no meio do poeirão, se chorava era pior, grudava a lama na cara, sujeira além do bodum.
Um dia cansou de urubu, aquela voação, esperneou, xingou, atirou pedras, e eles lá, pacientes e cagando. Encontrou um vendedor ambulante, dormiu com ele, matou o pobre de sexo. Ou de bodum. Ou dos dois. Apoderou-se do espólio do finado, dezenas de sombrinhas pretas, enfiou-as na terra seca feito jardim, o cabo pra cima.
Conforme os urubus desciam sobre o cadáver, ela caçava um por um, preso entre as pernas, as asas imobilizadas com uma mão; com a outra empalava o urubu. Esse não caga mais.
Fez um pomar de urubus empalados no sertão, os cabos das sombrinhas enterrados, urubu imóvel, asas arriadas, enrabadinhos. Todos de perfil, desenho de um Dalí egípcio, uma cena de Buñuel sertanejo, velhas aldeãs portuguesas sentadinhas nos bancos da paróquia.
Ficou livre, a retirante, e assumiu os urubus. Passou a andar batendo asas, grasnando, coberta de penas negras, cagando no mundo. Cada vez mais, e mais longe. Quem tem tempo, caga longe.
Nalgumas noites dá pra vê-la, assentada nos umbrais, imóvel, olhando pra mim e dizendo: never more.
Desta vez não vou matar a personagem. Merece viver, quem caga no mundo e empala urubus com sombrinhas. Quem vai morrer sou eu, daqui em diante.

03 abril 2015

A morte e a morte, do filho do rico e do filho do pobre.

"A dor da gente não sai no jornal." (Mas sai nas redes sociais.)
Minha questão é: a dor do rico e a do pobre podem ser iguais. As famílias sofrem do mesmo jeito a perda de um filho, seja rico ou pobre. Mas a vida e a morte do filho do rico e do filho do pobre são completamente diferentes. São desiguais. O tratamento dado a essas vidas e mortes é totalmente diferente. O tratamento, dado à dor do rico e à dor do pobre, é completamente diferente. Tratamento da mídia, tratamento da sociedade, tratamento pelo Estado.

Essa questão humanista de "somos todos iguais", "sofremos do mesmo modo", "dor é dor e ponto", tem contexto histórico, social e político. Foi inventada no séc. XVIII, e se disseminou com a Revolução Francesa. A quem serviu e serve o humanismo que iguala (perante a lei e perante a religião, ou seja, iguala ideológica e filosoficamente, mas não na prática) ricos e pobres? Homens e mulheres? Brancos e negros? 

A questão é exatamente essa: a quem, realmente, serve a disseminação da ideologia humanista de que todos somos iguais teoricamente, sendo que, na prática, não somos? A quem serve tentar conseguir a comoção e o sentimento afetuoso da população (de esmagadora maioria pobre) para a dor do rico?

Esse rico que não sofre as dores dos pobres, não se identifica com ela, não governa para que o pobre não sofra. Pelo contrário, esse rico que explora, que governa em causa (e classe) própria, e que falseia a realidade desumana e cruel com a ideologia humanista do "ricos e pobres são iguais".

Partindo desse princípio é que desqualificam todas as lutas antirracistas, feministas e de classe. Esse é o princípio que faz com que deixemos de enxergar as desigualdades (inclusive na hora da morte) e criemos empatia com o senhor, o explorador, o algoz.

Portanto, as covas (do rico e do pobre) podem medir 7 metros igualmente, mas o buraco é muito mais embaixo.

O buraco passa pela consciência e pela luta de classes, sim, tanto na vida quanto na morte.

Sinto muito, mas a dor do rico que nos explora, que deixa a nós, pobres, sem salários decentes, sem água pra beber, sem moradia, sem segurança pública, enfim, que governa só para os ricos, desviando dinheiro público, fazendo corrupção, nos deixando desamparados, não me comove, mesmo. Como diziam os escravos, com muitíssima propriedade, "eles são brancos, eles que se entendam".

Minha solidariedade e minha empatia são para com os que sofrem e não têm amparo. A minha e a de Jesus.