03 abril 2015

A morte e a morte, do filho do rico e do filho do pobre.

"A dor da gente não sai no jornal." (Mas sai nas redes sociais.)
Minha questão é: a dor do rico e a do pobre podem ser iguais. As famílias sofrem do mesmo jeito a perda de um filho, seja rico ou pobre. Mas a vida e a morte do filho do rico e do filho do pobre são completamente diferentes. São desiguais. O tratamento dado a essas vidas e mortes é totalmente diferente. O tratamento, dado à dor do rico e à dor do pobre, é completamente diferente. Tratamento da mídia, tratamento da sociedade, tratamento pelo Estado.

Essa questão humanista de "somos todos iguais", "sofremos do mesmo modo", "dor é dor e ponto", tem contexto histórico, social e político. Foi inventada no séc. XVIII, e se disseminou com a Revolução Francesa. A quem serviu e serve o humanismo que iguala (perante a lei e perante a religião, ou seja, iguala ideológica e filosoficamente, mas não na prática) ricos e pobres? Homens e mulheres? Brancos e negros? 

A questão é exatamente essa: a quem, realmente, serve a disseminação da ideologia humanista de que todos somos iguais teoricamente, sendo que, na prática, não somos? A quem serve tentar conseguir a comoção e o sentimento afetuoso da população (de esmagadora maioria pobre) para a dor do rico?

Esse rico que não sofre as dores dos pobres, não se identifica com ela, não governa para que o pobre não sofra. Pelo contrário, esse rico que explora, que governa em causa (e classe) própria, e que falseia a realidade desumana e cruel com a ideologia humanista do "ricos e pobres são iguais".

Partindo desse princípio é que desqualificam todas as lutas antirracistas, feministas e de classe. Esse é o princípio que faz com que deixemos de enxergar as desigualdades (inclusive na hora da morte) e criemos empatia com o senhor, o explorador, o algoz.

Portanto, as covas (do rico e do pobre) podem medir 7 metros igualmente, mas o buraco é muito mais embaixo.

O buraco passa pela consciência e pela luta de classes, sim, tanto na vida quanto na morte.

Sinto muito, mas a dor do rico que nos explora, que deixa a nós, pobres, sem salários decentes, sem água pra beber, sem moradia, sem segurança pública, enfim, que governa só para os ricos, desviando dinheiro público, fazendo corrupção, nos deixando desamparados, não me comove, mesmo. Como diziam os escravos, com muitíssima propriedade, "eles são brancos, eles que se entendam".

Minha solidariedade e minha empatia são para com os que sofrem e não têm amparo. A minha e a de Jesus.

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