09 abril 2015

Empalando urubus

“E se, de repente, a gente não sentisse a dor que
a gente finge, e sente? (Chico Buarque)

“Cagados de todo o mundo, uni-vos.”
(paráfrase de Karl Marx)

Era uma personagem portinariana, assim de um jeito esquálido, desengonçado, barriguda, cabelos desgrenhados. Andava pelas ruas de terra num vestido de chita colorido, amarelo, vermelho e verde, com uma sombrinha preta. Para combinar com o urubu, daqui a pouco.
Nunca chovia no sertão, não carecia de sombrinha para o sol, também, por que já tinha os miolos moles. Tinha dormido muitas vezes com o rosto descoberto, banhado de luar; tinha, também, bebido água de poços profundos, contaminados com água de outros lençóis subterrâneos. Todos sabem que lua sem véu e poço estrangeiro prejudicam os miolos. Miolos perfeitos exigem véu, muita sombra e o conhecido, nada de estranhezas. Ela era uma prejudicada.
Virou retirante da humanidade, andarilha, sem eira nem beira, empinada em cima das sandálias altas. Há que ter saltos altos, muito altos, os com prejuízo. Seus olhos perscrutavam horizontes outros, procuravam as fontes estranhas que alimentavam o poço na aridez. De tanto beber em poço e mirar aquele sem fim, ficou também, sem fundo nem chão. De vestido, sandália e sombrinha, o essencial, nem calcinha usava. Uma pura, básica, só de lua poço sol. Sem véus nem sombras.
Sem raízes, solta no espaço, assim de um jeito desengonçado, se equilibrando nos saltos, com auxílio da sombrinha.
De tanto ser retirante, mesmo contra a vontade, que, olha!, nunca pensou assim, vou sair por aí, cair no mundo perambulando, mas virou andante, perdida de tanto se retirar. Não tinha mais pra onde ir, pra onde voltar, caminho traçado, rota fixa, nexo, senso, norte. Uma sem noção. Se era sol ou era vento, temporal ou calmaria, pouco se lhe dava, se fiava só em si, vivia de dentro pra fora, exalando-se a si mesma. Suava, peidava, arrotava, recendia mau cheiro. Fedia de empestear.
Não era de estranhar que vivesse seguida por urubus. Tinha uma fieira deles sobrevoando-a por onde fosse. Era a rainha dos urubus, a deusa das aves funestas. Só pescava em curva de rio. Sua sombrinha vivia coberta de merda dos urubus, parecia craca, a merda seca. Uma nau sem rumo, casco invertido, grudada de cracas afiadas, singrando seu bodum pelo oceano. Retirante.
Nunca encalhava, passava ao largo e por cima dos esqueletos, cabeças de vacas, cactos secos, raízes expostas, pedras nem se fale, de todo tamanho, tropeçava, caía de se esfolar no meio do poeirão, se chorava era pior, grudava a lama na cara, sujeira além do bodum.
Um dia cansou de urubu, aquela voação, esperneou, xingou, atirou pedras, e eles lá, pacientes e cagando. Encontrou um vendedor ambulante, dormiu com ele, matou o pobre de sexo. Ou de bodum. Ou dos dois. Apoderou-se do espólio do finado, dezenas de sombrinhas pretas, enfiou-as na terra seca feito jardim, o cabo pra cima.
Conforme os urubus desciam sobre o cadáver, ela caçava um por um, preso entre as pernas, as asas imobilizadas com uma mão; com a outra empalava o urubu. Esse não caga mais.
Fez um pomar de urubus empalados no sertão, os cabos das sombrinhas enterrados, urubu imóvel, asas arriadas, enrabadinhos. Todos de perfil, desenho de um Dalí egípcio, uma cena de Buñuel sertanejo, velhas aldeãs portuguesas sentadinhas nos bancos da paróquia.
Ficou livre, a retirante, e assumiu os urubus. Passou a andar batendo asas, grasnando, coberta de penas negras, cagando no mundo. Cada vez mais, e mais longe. Quem tem tempo, caga longe.
Nalgumas noites dá pra vê-la, assentada nos umbrais, imóvel, olhando pra mim e dizendo: never more.
Desta vez não vou matar a personagem. Merece viver, quem caga no mundo e empala urubus com sombrinhas. Quem vai morrer sou eu, daqui em diante.

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