02 junho 2015

Meu passado é um morador de rua.



"E quando te perguntarem sobre seu passado, 

simplesmente responda: eu não vivo mais lá."

Meu passado é um morador de rua. Não resolvo nada, não fecho portas, também não mantenho janelas abertas, dou as costas para ele e vou embora pro futuro. Não coloco ponto final, exclamação nem interrogação, finjo que ignoro e passou. Nem reticências, que dali não vai haver continuidade. Devia existir um ponto pendurado, um sinal tipo um ganchinho para baixo da linha. O ponto sobre o abismo.  

Abandonei meu passado ao relento. Com todos seus personagens, fantasmas, zumbis, pulando, gritando, gargalhando, chorando desconsoladamente, se arrastando pelo chão. Meu passado é um miserável morador de rua que só tem uma cadelinha vira-lata pra lhe fazer companhia. E gorda, de tanto comer os restos que meu passado largou pelos caminhos.  

Eu gosto de olhar pro passado. Estudei história. Mas o passado é o que é, é o que foi. Fatos acontecidos, sentimentos sentidos ali, naquele lugar. Não serve mais para hoje, nem pode ser encaixado num futuro, sob pena de tornar-se um Frankenstein. O passado não permite re-significações, falsas atualizações à luz do presente, ou com vistas a um pretenso futuro.  

Não tentem mexer no meu passado. É como tentar reformar ou restaurar uma pirâmide milenar. É mais fácil transformar tudo em escombros, esfarelar tudo em pó, criar um monstro desconjuntado. Por que é um passado tão frágil.  

Meu passado é um sem teto, no frio, na chuva, no sol, no calor intenso. E só quer ficar quieto sob qualquer marquise. Deixem que ele descanse tranquilamente.
Eloisa Helena Maranhão.

Lobo-Guará


“Olha esse sorriso tão indeciso
Está se exibindo pra solidão
Não vão embora daqui
Eu sou o que vocês são
Não solta da minha mão
Não solta da minha mão”
(Los Hermanos)

Era verão e o ar estava muito seco. Havia poeira flutuando, carregada pelos ventos, e mesmo depois das chuvas torrenciais o ar voltava a ficar abafado e o calor, imenso.

O lobo caminhava com suas pernas altas pelo cerrado, respirando com dificuldade, sem vontade de caçar nem comer. Escondia-se no meio da pequena mata de pequizeiros, cansado, enfastiado de existir, e então se transformava em homem.

Seu pelo da cor do caju eram agora cabelos avermelhados caídos em cachos sobre os ombros do xamã já não tão jovem, mas cuja idade era indefinível. Quem o olhasse poderia lhe dar vinte ou setenta anos, dependendo de como quisesse aparecer, como velho ou jovem. Só os olhos se mantinham iguais, no lobo ou no homem, da cor de um mel amarelado, com as pupilas rasgadas. Como lobo ou como homem era estranhado pelos que o fitassem nos olhos, pois o lobo parecia homem, e o homem, lobo.

Não era totalmente lobo entre a matilha, nem totalmente homem entre os seus, e se sentia extremamente só. Era um estrangeiro onde quer que se encontrasse, e só se sentia razoavelmente à vontade no cerrado, correndo atrás de um coelho ou alguma ave terrestre, ou pescando e assando seus peixes e matando a sede nas cachoeiras.

Mesmo que os outros lobos respondessem aos seus uivos noturnos e que os espíritos dos arbustos retorcidos, toscos como eles, ouvissem suas rezas e lamentos, ele estava só. Era estrangeiro em terra estranha e não tinha casa. Nunca se lembrava de ter estado num lugar em que pensasse “estou em casa”, ou “aqui é meu lugar”. Nem como lobo nem como homem havia alguma vez repousado a cabeça num lugar que pudesse considerar seu. Era estrangeiro. E estava só.

Às vezes juntava-se à matilha, corria em bando, dividia pedaços dos animais caçados, mas não era um lobo. Aproximava-se de algum grupo de humanos, cantava à noite para eles, contava histórias ao redor do fogo, curava suas doenças, dormia em seus abrigos; era xamã e sabia exercer seu ofício. Mas não era um humano.

Estava só e era estrangeiro. Sabia uivar e sabia falar e assobiava como os pássaros e sibilava como cobras, coaxava como sapos no brejo e miava como onça. Mas não era onça cobra sapo pássaro lobo nem homem. Era tudo ao mesmo tempo, e esse tudo o fazia nada. Era estrangeiro em terra desconhecida. Nem preciso dizer que estava só, por que você já entendeu.

Conhecia a terra do cerrado e cada planta, cada flor em sua época de florir, cada animal, cada pedra, cada rio e cada gota d’água das chuvas. Conhecia os ventos, do inverno e do verão, e de onde vinham e para onde iam, e as fases da lua, e o mover do sol e das estrelas no céu. Conhecia os espinhos dos pequis e as cores das flores dos ipês, e conhecia os caminhos, as trilhas escondidas, as estradas abertas. Conhecia os espíritos dos vegetais e sabia fazer remédios e venenos com eles. 

Sabia escolher as fibras e tecer suas roupas e a madeira melhor para suas armas e instrumentos. E curtir o couro com quina e cavar canoas em troncos. Conhecia os cheiros do sangue e do suor dos animais, de cada espécie, e os barulhos e os silêncios todos. Podia nadar ou andar quilômetros de olhos fechados quando o sol ardia demais ou era noite sem luar. Nada lhe era desconhecido.

Mas era estrangeiro em sua própria terra e desconhecido de todos. Conhecia tudo e não era conhecido por nada nem ninguém.

Era um lobo-guará de pelos avermelhados e olhos cor de mel que se fazia xamã com cabelos cor do caju caindo em cachos pelos ombros e olhando o mundo enfastiado, com olhos cor de mel. Tão enfastiado que não sentia vontade nem de comer. Sentava-se, então, debaixo dos pequizeiros, e transformava-se em lobo. Cansado de ter só o sol e a lua por companhia

Continuava estrangeiro em terra estranha

E estava profunda e completamente só.

Eloisa Helena Maranhão.