13 julho 2015

Mar oceano


"Contar-se-á talvez, um dia, que também nós,
marchando para o oeste,
esperávamos atingir uma Índia, - mas que
o nosso destino foi encalhar perante o Infinito?"
(Nietzsche)

“Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?”
(Vasco Gato)


Conta-se que naqueles dias o sol nunca deixava de brilhar. Alaranjava as águas do Mar Oceano, avermelhava ao meio-dia, amarelava levemente quando era inverno... Mas não se punha nunca, o sol. Quem saísse a singrar naquelas águas havia de estar preparado, e não se queixar das dores de cabeça, nem da sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia. Sempre era dia. Ainda não havia noites, ali.


Ele não tinha perna-de-pau. Nem olho-de-vidro. Nem cara-de-mau. Pelo contrário, tinha olhos tranqüilos, fluidos, de longos cílios negros, que olhavam com doçura. Mas era pirata. Dos bons. Ou melhor, dos maus. Hão de ser maus, muito maus, os piratas. Até o próprio nome – bíblico – havia mudado. Escolhera uma letra que o identificava naqueles mares.

E passavam por ele navios, e aviões que o sobrevoavam, e naus e embarcações de todo tipo, e os navios maiores que faziam cruzeiros eram os que mais o enchiam de espanto e furor. Aquela gente toda sem saber para onde ia, dançando nos convés, nadando nas piscinas, refestelando-se em jantares cujas sobras jogavam no mar, que nem para os peixes serviam, estavam já podres. E quantos náufragos boiando ficavam por ali, acompanhando os navios com seus olhos famintos, tentando sobreviver dos restos. Atirava com seus canhões, queria afundar aqueles navios abarrotados de gente inútil.

Ninguém via os escombros todos por baixo da superfície. Nem sentiam o cheiro da podridão dos navios. Não notavam as manchas de óleo no mar. Nem os navios fazendo água. Do ninguém exclua nosso pirata. Ele sabia.

Passava a vida navegando e escrevendo. Era pirata escritor. Vivia de naufragar navios oficiais, dos saques que conseguia roubar das caravelas apinhadas com ouro e prata das Américas, das moedas e patacões que readquiria dos corsários, sempre tão bem remunerados, com suas cartas de reis e rainhas. 

Escrevia e lançava ao mar. Em garrafas arrolhadas, ou soltas ao vento, suas idéias e palavras eram lançadas ao mar. Sempre haveria quem as encontrasse e aí poriam brotos dentro desses, terreno fértil para palavras e idéias de um pirata sonhador.

Conta-se que, por vezes, sua caravela ia apinhada de gente. Toda sorte de gente encontrada naqueles mares, e eram náufragos, e eram putas procurando outro destino, e eram pobres e condenados do continente procurando a América e as ilhas do Pacífico, e eram escravos jogados pelos navios negreiros ainda com resto de vida, e eram velhos sem destino, abandonados, e eram crianças também abandonadas ou fugitivas, e eram amores passageiros, mas que pareciam duradouros, e eram amores duradouros, pelos quais não se daria um tostão, de tão instáveis que pareciam.

Mas por outras vezes sua caravela, navio-fantasma, vagava solitária, como solitário ele estava, sem ninguém, e sem comida, e sem água, e sem pássaros que o acompanhassem, e sem lua nem estrelas. Ainda eram tempos sem noite, aqueles. Ele suportava o sol e a solidão, sem opção.

Sempre escrevendo, em quantas línguas soubesse e inventasse, vai que alguém que não sabe língua nenhuma, ou que, de tanto sabê-las, esqueceu-as, e elas já não lhe fazem sentido, vai que esse alguém encontra sua mensagem e entende. Vai que alguém no Mar Oceano precisa dessa mensagem em alfabeto inventado. Urgia encontrar esse alguém.

Ela não tinha nome. Colocavam-lhe os nomes que queriam, quando passava em sua jangada perto das praias. Atracava, pegava água doce, consertava a jangada, passava uns tempos na terra e voltava ao mar. 

Era jangadeira. Nascera em terra firme - era o que diziam -, mas tinha-se lançado ao mar desde que notara que a terra não trazia segurança alguma. 

Conta-se que, quando notou que também o mar não era garantido, era tarde. Já estava ao sol, pele ressecando a cada dia, o suor salgado escorrendo na boca sedenta. Não se queixava. Não tinha opção. Navegar é preciso, viver não é preciso. Bendita Escola de Sagres, que constrói embarcações e sabe que navegar é preciso. Lançou-se a navegar.

Era tudo que sabia fazer. Ou que precisava fazer. Navegar. Manter-se flutuando, mesmo que à deriva. Aprendeu a fazer jangadas, pois caravela era coisa de corsários, tripulação oficial ou piratas. Não era uns nem outros. Era jangadeira. Nem nome tinha.

Também recolhia náufragos, putas, loucos, pobres, condenados, velhos, fugitivos, cães sarnentos e gatos doentes em sua jangada, que logo deixava nos portos, ou em outras embarcações que a abordassem. Não sabia o que fazer com gente. Não gostava de seguidores. Nem de seguir. Melhor que cada um encontrasse seu caminho. Ou inventasse um. 

Tocava flauta andina embalando-se a si mesma, e atabaque para espantar os peixes grandes, os tubarões que se aproximavam perigosamente da jangada, índia e negra de cultura iletrada, só sons, se fizeram dentro dela. Cafuza dos mares.

Nem sabia a urgência que sentia de uma mensagem, quando achou uma garrafa com um papel dentro. Abriu e leu. Não estava em língua nenhuma conhecida, mas ela leu. Aquela era sua linguagem, que havia inventado há tanto tempo, para se comunicar consigo mesma. Tudo que escrevia era tentativa de falar consigo, e depois virava fogueira para assar peixes. Papéis serviam para isso, assar peixes saborosos. Ou virar colagens para enfeitar a jangada. Jangada colorida era essencial.

A mensagem tomou conta dela. Falava dos navios oficiais, dos jantares desperdiçados, e de pirataria, e dos escombros que ninguém via – só ela -, e do cheiro de podridão do Mar Oceano. Ela também sentia aquele cheiro, e vagava no meio daqueles escombros. Tinha passado a vida tentando manter-se à tona, desviar deles, e ajudar náufragos.

Outras mensagens chegavam à jangada. Tornou-se emergencial ler aqueles textos, respondê-los, saber de onde vinham. Era sua língua, desconhecida de todos, mas alguém sabia! Quando se tornou aléxica de tanta palavra que tinha dentro de si, de tanta leitura, perdeu a capacidade de se comunicar, e nem mais lia e nem conseguia escrever, também, e nem falar, tudo que soubesse a linguagem perdeu o sentido, e era uma surda-muda-analfabeta solta no Mar Oceano, e nem sinais já conseguia reconhecer, e quanto mar havia para entender, mas estava sem significação alguma. 

Aquelas mensagens restituíram nela a leitura e a compreensão do mundo. E a escrita. E a fala. Sentiu novamente a urgência da comunicação.

Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele. Que tinha costas largas e braços compridos bons de abraçar, peito firme que dava sustento a uma cabeça cansada de navegar.

Ele continuou pirata. Ela manteve-se jangadeira. Mas tinham-se um ao outro, agora. Isso bastaria por uns tempos. 

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois. 

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.

Eloisa Helena Maranhão

09 julho 2015

Bibi, a sabida.

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas,
mas ao tocar uma alma humana, 
seja apenas outra alma humana." (C. G. Jung)


“Nossa, que criança mais sabida!”, diziam todos que ouviam aquela menina tão pequena falar. Despertava admiração – e mesmo inveja – nos adultos, jovens, idosos, adolescentes, outras crianças e até nos bebês, caso esses também pudessem falar.

E assim nasceu Bibi – não, não nasceu da admiração e/ou inveja dos que a conheceram, claro que nasceu antes, alguns anos antes de começar a falar e mostrar sua inteligência afiada, suas frases “espirituosas” – mas nasceu o apelido da menina, Bibi. Poderia ter sido Sassá, Dadá, mas parece que gostaram mais da sílaba do meio – bi – e foi assim que a menina se tornou Bibi. Pra simplificar pros mais simples: sa-bi-da, Bibi.

Pois bem, humanos, notamos, aí, que inteligência, perspicácia, e, mais tarde, uma ampla cultura nunca faltaram a Bibi. Lia de tudo, bulas de remédio, rótulos de garrafas, sabia “de cor” a fórmula da coca-cola, todos os ingredientes e substâncias químicas daquela bebida cancerígena (o que não a impedia de se encher de coca-cola e nem se importar que desse câncer, ou engordasse, ou qualquer outra coisa, os vícios são assim mesmo), lia cartazes nos postes, e seus preferidos eram os que mostravam os procurados pela polícia, os “terroristas” tão inimigos da Pátria e dos bons brasileiros. Claro que, mais tarde, pôde entender que quem, realmente, tocava o terror era o Exército, as polícias, enfim, os militares, mas isso só mais tarde.

Sim, só conseguiu entender mais tarde algumas coisas – muitas delas – coisas que não compreendia na infância, apesar de muitas outras ela não ter entendido nem quando jovem, ou adulta e nem velha, por que muitas coisas Bibi nunca conseguiria entender. Sim. Bibi era muito inteligente, culta, perspicaz, intelectual, como já expliquei no começo pra quem não é tão perspicaz quanto ela, e, porventura, venha a ler essa história. Mas Bibi não entenderia, nunca, muita coisa, não por falta de inteligência, mas por falta de um emocional capacitado, funcional, digamos, que isso a menina (ou a velha, a jovem, a mulher) não teve, mesmo.

Em outras palavras, era uma superdotada intelectualmente, e uma deficiente emocional. Reparem que não coloquei “mas” deficiente, e isso foi proposital, porque ser muito inteligente não se opõe a ser muito incapaz emocionalmente, pelo contrário, às vezes até andam de mãos dadas, como em Bibi. 

Bibi tinha o pensamento super organizado. Era lógica, lúcida, extremamente racional. Mas o emocional de Bibi era caótico, sem organização alguma. Seu pensamento organizadíssimo não dava conta do que fazer com suas emoções descontroladas, seus humores instáveis.

Essa deficiência emocional sempre foi um atrapalho na vida da Bibi. Até mesmo quando, já adulta, ou passada de adulta, ali pela segunda idade e meia, ela precisou fazer psicoterapia, e isso dificultou, ou mesmo impossibilitou, sua psicoterapia e/ou análises.

Explico de novo aos menos sabidões, pois não sou como Bibi quando criança, impaciente com os menos capacitados intelectualmente, com tolerância zero para ficar explicando demais.

Pois explico, então, até desenho se for preciso – ser muito inteligente atrapalhou nas terapias de Bibi, pois quem a tratava, ou terapeutizava, ou dela cuidava psicologicamente sempre partia do princípio que intelectualmente se resolvem problemas emocionais, ou que, entendendo-os intelectualmente, resolvê-los fica mais fácil, ou simples, ou alguma coisa assim, e que, portanto, Bibi tinha amplos “recursos”, muito mais que as pessoas, ditas comuns, para trabalhar seu emocional, para se entender, para se conhecer.

Ledo engano, humanos, pois por ser tão deficiente emocionalmente, burra mesmo, talvez até retardada (como diriam os não politicamente-corretos), por ser tão retardada emocional Bibi não conseguia se conhecer nem ser curada (ou, pelo menos, tratada, melhorando seus sintomas), já que seu problema principal não vinha de falta de inteligência, mas de incapacidade de lidar com seu emocional.

Emocionalmente era uma criança. Sentia como criança, agia como criança. O que não impedia Bibi, ou justamente por isso, de falar quase tudo de si mesma e dos outros, pondo o dedo no cerne, nas feridas principais. Expunha tanto que era considerada inconveniente, além de extremamente lúcida, crítica e fria. Mas essa frieza não era verdade (ao menos, não a verdade dela, já que há tantas verdades quanto pessoas julgando ou tentando entender alguma coisa). As versões são várias, diversas, e vence quem conta a melhor história. Olha eu aqui, quase falando como Bibi.

Essa pretensa frieza, lucidez e excesso de crítica eram as defesas dela. A única defesa de Bibi era se mostrar tanto, viver tão nua, que ninguém a enxergava, realmente. E ela não queria ser enxergada realmente (seja lá o que for o real), porque vivia revirada de dentro pra fora, as vísceras expostas, os órgãos internos expostos, e até os olhares doem, para quem vive nessa situação de desumanidade. 

Se mostrar demasiado para se esconder, portanto, era sua defesa e condenação. Porque, na realidade (sim, humanos, na dela, pois realidade é como verdade, múltipla, variada e tal), Bibi era julgada de acordo com os a priori daqueles que a julgavam ou analisavam (claro, que todos fazemos assim, mesmo), mas Bibi não se encaixava ou não tinha como ser encaixada neles, por mais que tentassem e conseguissem. Sim, eles a encaixavam nas suas teorias, mas dava erro, pois ela não era passível de ser encaixava, ela não funcionava de acordo com as teorias. Pelo menos, não as mais conhecidas e aplicadas.

Por exemplo, a busca do prazer e da felicidade. Isso nunca tinha sido, para Bibi, sua motivação, consciente ou inconsciente. Bibi não buscava felicidade nem prazer a qualquer custo, porque felicidade é uma abstração, construída, que nem todos perseguem. Bibi não perseguia. Ela não ligava para ser feliz, e, mesmo, tinha certeza que felicidade não existia. 

Ela queria viver em paz, queria sossego (Bibi e o Tim Maia), queria não ser. Sua busca era por uma existência que gastasse o mínimo de energia psíquica, que a economizasse. Por isso sua frase preferida era “me poupe”. Não me gaste, porque eu também não quero me gastar, pensava Bibi. Já o Tim Maia eu não sei, creio que ele era do tipo de se gastar muito, queimar até o último pedacinho de vela. 

Outra coisa era isso de "re-significar o passado". Bibi não sabia como nem por que re-significar o passado (nem qual passado era ou não re-significável). Isso de dar outra significação ao passado, à luz do presente, lhe cheirava a fraude. O passado tinha sido ali, à luz dele mesmo e de quem era na época, tanto Bibi quanto os outros, e não havia como compreendê-lo à luz do presente, do que se era no hoje, sem fraudá-lo, falseá-lo.

Ela se lembrava de Marx, para quem “a história acontece como tragédia e se repete como farsa." Para Bibi, inclusive a história pessoal, individual, só podia ser repetida como farsa, pois que já a tinha vivido, e ela nunca se repetiria na realidade, mas apenas enquanto objeto a ser compreendido de outra forma. E quem garante que a compreensão atual é melhor que a do passado? E, mesmo que fosse (ou seja), quem pode garantir que re-significar o passado não seja fraude, já que ela sentia o passado (ou cada momento que vivera) como o único possível de ser vivido, o único que foi possível dentre tantas outras possibilidades? De que adiantava rever, alterar, dar outro significado a um passado que só foi realmente “fato” ali, naquele contexto? Sim, Bibi sofria de excesso de contextualização histórica, mas isso é outro assunto.

Outro problema que enfrentava nas suas psicoterapias era que Bibi não conseguia achar que alguém poderia saber mais que ela sobre ela mesma. E era muito criticada por isso, sendo acusada de se achar super poderosa, de ser arrogante, de não ouvir o que lhe diziam a seu respeito. Mas tenhamos um pouco de compreensão sobre Bibi, até mesmo de compaixão (pois era só disso que ela precisava, realmente), e tentemos entender que ela se conhecia a si própria (ou achava que se conhecia, o que, na prática, dá na mesma), e que esse seu conhecimento era profundamente intelectual, assim como o conhecimento que os teóricos das psicologias podiam ter sobre ela. 

Bibi precisava de outro conhecimento, de um conhecimento emocional, de empatia, de compaixão, de compreensão, e não de ser conhecida intelectualmente. Também lhe falavam a respeito disso, censurando-a, quando ela reclamava que não se sentia tratada pelos terapeutas; eles diziam: “mas nós pensamos tanto sobre você, você é muito pensada.” Oras, pensar em mim eu mesma penso, pensava Bibi, de saco-cheio de tanto pensamento (inclusive gramaticalmente nessa frase, que, se Bibi lesse, ficaria irritada. Mas ela nunca vai ler isso, e no fim você, que está lendo, vai saber por que).

Bibi era tão radical (não vou chamá-la de chata, que ela ficaria triste se lesse isso), pois era tão radical que reclamava mais ainda quando ouvia essa coisa de “ser pensada”, mas que merda de tanto ser pensada e de pensar que esse povo terapêutico tem? Desde quando se faz terapia à distância, pensando nos pacientes? Quando foi que inventaram a psicoterapia telepática?

Mas tanto quanto ser pensada, ser chamada a re-significar o passado, ser encaixada em teorias que não lhe diziam nada (mesmo porque as teorias eram deles, do Outro, e só serviam para diagnosticar, e não para tratar), mas tanto quanto tudo isso, incluindo a intelectualidade dos terapeutas e o exibicionismo deles, Bibi não suportava a raiva deles sobre si. 

Sim, pode ser que ela fosse realmente uma sem-rumo, sem-noção, sem-futuro e sem-tudo-ou-qualquer-coisa, mas suportar uma raiva que ela sentia como lhe sendo dirigida; suportar uma raiva que ela achava que lhe era dirigida por que era inteligente e, portanto, achavam que ela não entendia por que não queria, a ponto de chegarem bem perto dela e quase gritarem, “mas eu estou falando do pai, criatura, não da mãe!”, pois suportar essa raiva era impossível para Bibi, que se deprimia, ficava absolutamente sem chão e sem teto, e decidia abandonar o que lhe causava mal. 

E como, aqui, estamos falando de Bibi e seus sentimentos, e não dos terapeutas e das teorias deles, então o que Bibi achava e sentia era a verdade – a sua verdade. E aqui, portanto, fica a versão dela, não a dos outros.

Pra simplificar as coisas, vou fazer uma lista de algumas coisas que Bibi não precisava (nem na terapia nem no relacionamento com quem quer que seja). Bibi não precisava de: intelectualismo, exibicionismo, perda de tempo (dela mesma nem dos outros), defeitos esfregados na sua cara – pois ela, mais que ninguém, conhecia muito bem seus defeitos, erros, falhas, crimes e pecados, e ela também sabia que isso todo mundo tinha, não só ela. 

E aceitava cada um como era, sendo, daí, chamada de excessivamente indulgente, de muito condescendente, de não exigente, e era um tal de fazê-la achar que precisava ter “amor exigente”, o que, para ela, era um contrassenso, pois amor é incondicional – tinha aprendido isso com o cristianismo, e gostado – e amor não exigia nada, mesmo, e cada um amava a quem queria, ou podia. Ela era assim, o amor que sabia ter era assim, e também era muito horrível ouvir dos humanos que mães assim, sem exigências nem limites, fabricavam filhos psicóticos. Ou não, que a responsabilidade era do pai, que não tinha sabido fazer o corte edipiano – como se tudo se encaixasse na triangulação edipiana, e na teoria psicanalítica, e na família burguesa – sim, mesmo que fosse uma teoria psicanalítica revista, seja por Klein, seja por Lacan.

Só que Bibi não procurava terapia para ser perfeita ou santa, mas sim para... Para quê, mesmo?

Aqui vamos fazer a lista do que Bibi procurava nas terapias, terapeutas e nos demais humanos que habitavam o mesmo planeta que ela, sendo indiferente que fossem mesmo humanos ou ETs, já que aqui estavam e aqui viviam. 

Lista das necessidades de Bibi: sossego, tranquilidade, paz (e essas três coisas significavam: pouco ou nenhum barulho, incluindo músicas, pouca ou nenhuma luz, incluindo a do sol; ou seja, pouco ou o mínimo de estímulos exteriores, já que sofria de excesso de estímulos internos); acolhimento verdadeiro que, para ela, significava ser compreendida emocionalmente e ser aceita com seus erros, defeitos, pecados e crimes, desta e de outras vidas passadas (caso existissem, mas era bom já incluir tudo). Tolerância, num mundo onde a tolerância era tão prestigiada, mas quem realmente era praticada era a intolerância, e essa necessidade de mudar o Outro. E acima de tudo, nas suas terapias, Bibi precisava que os terapeutas, mesmo que não fossem junguianos, tocassem sua alma com a alma quente deles, não com seus intelectos frios – e também que não ficassem querendo que Bibi revisasse toda sua vida, mudasse de rumo e se “reeducasse”.

Isso de reeducação era uma pedra no sapato, um tiro no peito, um soco no estômago, uma injeção na testa. Se reeducar para quê, por que, e, acima de tudo, sob quais critérios? Se adequar? Adaptar? Ser socialmente aceita? (Isso poderia ser dito há décadas atrás, quando a psicologia se prestava a isso). 

Foi exatamente isso que as religiões fizeram (e fazem), adestrando humanos para viver numa sociedade completamente doente, enlouquecida. E só quando todos forem iguais é que os religiosos podem ter sossego, porque cada um que escapa ao adestramento é uma ameaça à fé que possuem. Esse é o princípio da evangelização, da catequização, da tentativa de converter quem pensa diferente às suas crenças, o princípio da propagação das crenças. Esse é o princípio não só das religiões, mas das filosofias ou psicologias (e, inclusive, das loucuras) – todos têm que aceitar seus a priori, sob pena de ver tudo lançado no fogo ou ao chão, caso não lhes deem sustentação coletiva. 

Isso no passado das psicoterapias. Mas no hoje, diziam que ela precisava mudar para que não sofresse tanto. Para ser feliz. Volta, aí, a questão da felicidade, e entra, junto, a do sofrimento. 

Ser feliz, Bibi não se importava mesmo, nem tanto por achar que não era relevante, mas por sentir que não conseguiria ser feliz nunca. E sofrer menos, como? Bibi não conseguia imaginar que viver num mundo como o nosso, com tantos problemas, tanta loucura de tudo que é tipo, um mundo caótico, despedaçado, em vias de extinção pelo próprio humano, um mundo poluído, ferrado, destruído, desigual, injusto, cruel, violento – e, aí, entravam questões não só naturais, mas também, claro e principalmente, as culturais –, pois num mundo como esse era impossível não sofrer. A menos que se fosse completa e totalmente fora da realidade, ou imbecil (ou se fingisse muito ser), ou psicopata. 

E Bibi não conseguia sair totalmente da realidade (ainda não tinha conseguido, mesmo que tivesse chegado perto, sobrando-lhe, portanto, e apenas, sair da realidade literalmente, se suicidando), não era psicopata, sem empatia com nada nem ninguém, não era imbecil e também não conseguia fingir, por que a farsa era muito clara, óbvia de se ver, e facilmente desmascarada (caso se encontrasse sob máscaras, o que a cada dia acontecia menos). A farsa já não tinha como se esconder, ao menos para Bibi; era impossível não vê-la, não ouvi-la, não cheirá-la, não senti-la em toda sua pestilência. 

Resultado: Bibi sofria, sim, não era feliz, mesmo, e nem queria sê-lo (mesmo que conseguisse, o que não era o caso). Não sabia ser feliz sozinha e nem desejava isso. Tudo lhe doía, tudo lhe afetava, as pessoas, os bichos, a natureza revolvida, tudo era ela, e ela era tudo. Fim. (Por enquanto e desse assunto).

E não era só o passado que era um problema, mas o tal do futuro também. Bibi não conseguia imaginar um futuro (a menos que fosse uma distopia). Quanto mais vivia mais tinha certeza que futuro não existe, e que a filosofia de Sartre, segundo a qual "o homem existe porque se lança para o futuro, projeta-se conscientemente no futuro" era uma bobagem, já que ela não via futuro nenhum em nenhum lugar. Sartre só serviu pra fazê-la descobrir por que não existia (como ela sempre desconfiara). Ela não existia porque nunca tinha visto futuro nenhum para se projetar. 

Ora, que tão pessimista é essa Bibi. Sim, pensava e sentia ela, pode ser que amanhã seja um novo dia. E será – para quem estiver vivo. Mas há novos dias que são piores, muito piores, que os dias anteriores. Era tão problemática, (ou sem ilusões?), a Bibi, que acreditava em qualquer coisa ruim para o futuro; quanto ao passado e presente não precisava acreditar, por que era só ver o que aconteceu ou estava acontecendo.

Bibi sentia que tudo era instável, profunda e totalmente instável, desequilibrado, que tudo era diferente a cada segundo, e que, portanto, tinha toda razão de ter medo. As pessoas não tinham noção de como tudo era apavorante? De como tudo era muito, muito frágil, muito rápido, muito fugaz, e só o instantâneo existia e, puf, sumiu? Pois Bibi sentia até o enjoo de estar sobre um planeta rodando muito rapidamente, de estar sobre um planeta formado por magma fervendo e borbulhando, e estar sobre uma casquinha muito frágil de algo sólido em cima de placas tectônicas deslizando, e tudo caminhando, também muito rapidamente, para o fim, ou para o buraco.

Sim, humanos que me leem e tentam (ou não) compreender Bibi, “Bingo!”, pode ser que digam alguns de vocês, “esse é o problema de Bibi, a morte.” Ledo engano. A morte era a solução de Bibi, a única saída real desse caos todo em que vivia, e a única razão dela continuar viva era estar sempre perto da porta. Ela sempre se postava perto da porta, para que pudesse escapar quando necessário – ou quando fosse insuportável continuar, o que dá na mesma. 

Sim, humanos, ela tinha medo. Sim, ela estava sozinha, profundamente sozinha, e tinha consciência disso. Sim, ela estava desesperada. E sim, ela não sabia como vai ser amanhã. Assim como todos vocês, assim como todos nós, Bibi também não sabia fazer aquilo que todos não sabemos fazer, mas tentamos ou fingimos (o que, pelo menos, funciona). Como Bibi tinha extrema consciência da fragilidade de tudo, inclusive das invenções que fazemos para tentar sobreviver, e ser feliz, e sofrer menos, e, e, e, Bibi não era funcional.

E, por se saber não funcional, por saber que nunca se adaptaria a esse mundo, que sempre vivera na tangente, pendurada sobre o abismo, e que a qualquer momento poderia ser centrifugada da vida, Bibi sabia, sim, que a morte era a única salvação. E por isso, sempre tinha avisado que ia vazar. O que a maioria não levava a sério, pois pensavam que cachorro que late não morde. Mas Bibi sabia que cachorro que muito late, morde. Mais cedo ou mais tarde, ele morde. O latido é só um aviso, "eu vou morder, sim".

E Bibi viveu latindo, até que vazou. Soltou a linha. Por isso eu disse no começo, humanos, que ela não leria isso aqui. Porque Bibi não é mais. Foi, não gostou, e deixou de ser, como convém a quem, realmente, busca o não sofrimento. 

E para os que ficaram com pena, com um sentimento de “oh, ela vazou, mesmo”, pensem que, no fim, o que sobra são as histórias, como esta aqui. Somos todos, apenas, histórias. Contos, crônicas, romances, lendas – alguns, mitos. Mas somos, todos, histórias, no final.

Essa é uma das de Bibi, a sabida.

Eloisa Helena Maranhão