09 julho 2015

Bibi, a sabida.

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas,
mas ao tocar uma alma humana, 
seja apenas outra alma humana." (C. G. Jung)


“Nossa, que criança mais sabida!”, diziam todos que ouviam aquela menina tão pequena falar. Despertava admiração – e mesmo inveja – nos adultos, jovens, idosos, adolescentes, outras crianças e até nos bebês, caso esses também pudessem falar.

E assim nasceu Bibi – não, não nasceu da admiração e/ou inveja dos que a conheceram, claro que nasceu antes, alguns anos antes de começar a falar e mostrar sua inteligência afiada, suas frases “espirituosas” – mas nasceu o apelido da menina, Bibi. Poderia ter sido Sassá, Dadá, mas parece que gostaram mais da sílaba do meio – bi – e foi assim que a menina se tornou Bibi. Pra simplificar pros mais simples: sa-bi-da, Bibi.

Pois bem, humanos, notamos, aí, que inteligência, perspicácia, e, mais tarde, uma ampla cultura nunca faltaram a Bibi. Lia de tudo, bulas de remédio, rótulos de garrafas, sabia “de cor” a fórmula da coca-cola, todos os ingredientes e substâncias químicas daquela bebida cancerígena (o que não a impedia de se encher de coca-cola e nem se importar que desse câncer, ou engordasse, ou qualquer outra coisa, os vícios são assim mesmo), lia cartazes nos postes, e seus preferidos eram os que mostravam os procurados pela polícia, os “terroristas” tão inimigos da Pátria e dos bons brasileiros. Claro que, mais tarde, pôde entender que quem, realmente, tocava o terror era o Exército, as polícias, enfim, os militares, mas isso só mais tarde.

Sim, só conseguiu entender mais tarde algumas coisas – muitas delas – coisas que não compreendia na infância, apesar de muitas outras ela não ter entendido nem quando jovem, ou adulta e nem velha, por que muitas coisas Bibi nunca conseguiria entender. Sim. Bibi era muito inteligente, culta, perspicaz, intelectual, como já expliquei no começo pra quem não é tão perspicaz quanto ela, e, porventura, venha a ler essa história. Mas Bibi não entenderia, nunca, muita coisa, não por falta de inteligência, mas por falta de um emocional capacitado, funcional, digamos, que isso a menina (ou a velha, a jovem, a mulher) não teve, mesmo.

Em outras palavras, era uma superdotada intelectualmente, e uma deficiente emocional. Reparem que não coloquei “mas” deficiente, e isso foi proposital, porque ser muito inteligente não se opõe a ser muito incapaz emocionalmente, pelo contrário, às vezes até andam de mãos dadas, como em Bibi. 

Bibi tinha o pensamento super organizado. Era lógica, lúcida, extremamente racional. Mas o emocional de Bibi era caótico, sem organização alguma. Seu pensamento organizadíssimo não dava conta do que fazer com suas emoções descontroladas, seus humores instáveis.

Essa deficiência emocional sempre foi um atrapalho na vida da Bibi. Até mesmo quando, já adulta, ou passada de adulta, ali pela segunda idade e meia, ela precisou fazer psicoterapia, e isso dificultou, ou mesmo impossibilitou, sua psicoterapia e/ou análises.

Explico de novo aos menos sabidões, pois não sou como Bibi quando criança, impaciente com os menos capacitados intelectualmente, com tolerância zero para ficar explicando demais.

Pois explico, então, até desenho se for preciso – ser muito inteligente atrapalhou nas terapias de Bibi, pois quem a tratava, ou terapeutizava, ou dela cuidava psicologicamente sempre partia do princípio que intelectualmente se resolvem problemas emocionais, ou que, entendendo-os intelectualmente, resolvê-los fica mais fácil, ou simples, ou alguma coisa assim, e que, portanto, Bibi tinha amplos “recursos”, muito mais que as pessoas, ditas comuns, para trabalhar seu emocional, para se entender, para se conhecer.

Ledo engano, humanos, pois por ser tão deficiente emocionalmente, burra mesmo, talvez até retardada (como diriam os não politicamente-corretos), por ser tão retardada emocional Bibi não conseguia se conhecer nem ser curada (ou, pelo menos, tratada, melhorando seus sintomas), já que seu problema principal não vinha de falta de inteligência, mas de incapacidade de lidar com seu emocional.

Emocionalmente era uma criança. Sentia como criança, agia como criança. O que não impedia Bibi, ou justamente por isso, de falar quase tudo de si mesma e dos outros, pondo o dedo no cerne, nas feridas principais. Expunha tanto que era considerada inconveniente, além de extremamente lúcida, crítica e fria. Mas essa frieza não era verdade (ao menos, não a verdade dela, já que há tantas verdades quanto pessoas julgando ou tentando entender alguma coisa). As versões são várias, diversas, e vence quem conta a melhor história. Olha eu aqui, quase falando como Bibi.

Essa pretensa frieza, lucidez e excesso de crítica eram as defesas dela. A única defesa de Bibi era se mostrar tanto, viver tão nua, que ninguém a enxergava, realmente. E ela não queria ser enxergada realmente (seja lá o que for o real), porque vivia revirada de dentro pra fora, as vísceras expostas, os órgãos internos expostos, e até os olhares doem, para quem vive nessa situação de desumanidade. 

Se mostrar demasiado para se esconder, portanto, era sua defesa e condenação. Porque, na realidade (sim, humanos, na dela, pois realidade é como verdade, múltipla, variada e tal), Bibi era julgada de acordo com os a priori daqueles que a julgavam ou analisavam (claro, que todos fazemos assim, mesmo), mas Bibi não se encaixava ou não tinha como ser encaixada neles, por mais que tentassem e conseguissem. Sim, eles a encaixavam nas suas teorias, mas dava erro, pois ela não era passível de ser encaixava, ela não funcionava de acordo com as teorias. Pelo menos, não as mais conhecidas e aplicadas.

Por exemplo, a busca do prazer e da felicidade. Isso nunca tinha sido, para Bibi, sua motivação, consciente ou inconsciente. Bibi não buscava felicidade nem prazer a qualquer custo, porque felicidade é uma abstração, construída, que nem todos perseguem. Bibi não perseguia. Ela não ligava para ser feliz, e, mesmo, tinha certeza que felicidade não existia. 

Ela queria viver em paz, queria sossego (Bibi e o Tim Maia), queria não ser. Sua busca era por uma existência que gastasse o mínimo de energia psíquica, que a economizasse. Por isso sua frase preferida era “me poupe”. Não me gaste, porque eu também não quero me gastar, pensava Bibi. Já o Tim Maia eu não sei, creio que ele era do tipo de se gastar muito, queimar até o último pedacinho de vela. 

Outra coisa era isso de "re-significar o passado". Bibi não sabia como nem por que re-significar o passado (nem qual passado era ou não re-significável). Isso de dar outra significação ao passado, à luz do presente, lhe cheirava a fraude. O passado tinha sido ali, à luz dele mesmo e de quem era na época, tanto Bibi quanto os outros, e não havia como compreendê-lo à luz do presente, do que se era no hoje, sem fraudá-lo, falseá-lo.

Ela se lembrava de Marx, para quem “a história acontece como tragédia e se repete como farsa." Para Bibi, inclusive a história pessoal, individual, só podia ser repetida como farsa, pois que já a tinha vivido, e ela nunca se repetiria na realidade, mas apenas enquanto objeto a ser compreendido de outra forma. E quem garante que a compreensão atual é melhor que a do passado? E, mesmo que fosse (ou seja), quem pode garantir que re-significar o passado não seja fraude, já que ela sentia o passado (ou cada momento que vivera) como o único possível de ser vivido, o único que foi possível dentre tantas outras possibilidades? De que adiantava rever, alterar, dar outro significado a um passado que só foi realmente “fato” ali, naquele contexto? Sim, Bibi sofria de excesso de contextualização histórica, mas isso é outro assunto.

Outro problema que enfrentava nas suas psicoterapias era que Bibi não conseguia achar que alguém poderia saber mais que ela sobre ela mesma. E era muito criticada por isso, sendo acusada de se achar super poderosa, de ser arrogante, de não ouvir o que lhe diziam a seu respeito. Mas tenhamos um pouco de compreensão sobre Bibi, até mesmo de compaixão (pois era só disso que ela precisava, realmente), e tentemos entender que ela se conhecia a si própria (ou achava que se conhecia, o que, na prática, dá na mesma), e que esse seu conhecimento era profundamente intelectual, assim como o conhecimento que os teóricos das psicologias podiam ter sobre ela. 

Bibi precisava de outro conhecimento, de um conhecimento emocional, de empatia, de compaixão, de compreensão, e não de ser conhecida intelectualmente. Também lhe falavam a respeito disso, censurando-a, quando ela reclamava que não se sentia tratada pelos terapeutas; eles diziam: “mas nós pensamos tanto sobre você, você é muito pensada.” Oras, pensar em mim eu mesma penso, pensava Bibi, de saco-cheio de tanto pensamento (inclusive gramaticalmente nessa frase, que, se Bibi lesse, ficaria irritada. Mas ela nunca vai ler isso, e no fim você, que está lendo, vai saber por que).

Bibi era tão radical (não vou chamá-la de chata, que ela ficaria triste se lesse isso), pois era tão radical que reclamava mais ainda quando ouvia essa coisa de “ser pensada”, mas que merda de tanto ser pensada e de pensar que esse povo terapêutico tem? Desde quando se faz terapia à distância, pensando nos pacientes? Quando foi que inventaram a psicoterapia telepática?

Mas tanto quanto ser pensada, ser chamada a re-significar o passado, ser encaixada em teorias que não lhe diziam nada (mesmo porque as teorias eram deles, do Outro, e só serviam para diagnosticar, e não para tratar), mas tanto quanto tudo isso, incluindo a intelectualidade dos terapeutas e o exibicionismo deles, Bibi não suportava a raiva deles sobre si. 

Sim, pode ser que ela fosse realmente uma sem-rumo, sem-noção, sem-futuro e sem-tudo-ou-qualquer-coisa, mas suportar uma raiva que ela sentia como lhe sendo dirigida; suportar uma raiva que ela achava que lhe era dirigida por que era inteligente e, portanto, achavam que ela não entendia por que não queria, a ponto de chegarem bem perto dela e quase gritarem, “mas eu estou falando do pai, criatura, não da mãe!”, pois suportar essa raiva era impossível para Bibi, que se deprimia, ficava absolutamente sem chão e sem teto, e decidia abandonar o que lhe causava mal. 

E como, aqui, estamos falando de Bibi e seus sentimentos, e não dos terapeutas e das teorias deles, então o que Bibi achava e sentia era a verdade – a sua verdade. E aqui, portanto, fica a versão dela, não a dos outros.

Pra simplificar as coisas, vou fazer uma lista de algumas coisas que Bibi não precisava (nem na terapia nem no relacionamento com quem quer que seja). Bibi não precisava de: intelectualismo, exibicionismo, perda de tempo (dela mesma nem dos outros), defeitos esfregados na sua cara – pois ela, mais que ninguém, conhecia muito bem seus defeitos, erros, falhas, crimes e pecados, e ela também sabia que isso todo mundo tinha, não só ela. 

E aceitava cada um como era, sendo, daí, chamada de excessivamente indulgente, de muito condescendente, de não exigente, e era um tal de fazê-la achar que precisava ter “amor exigente”, o que, para ela, era um contrassenso, pois amor é incondicional – tinha aprendido isso com o cristianismo, e gostado – e amor não exigia nada, mesmo, e cada um amava a quem queria, ou podia. Ela era assim, o amor que sabia ter era assim, e também era muito horrível ouvir dos humanos que mães assim, sem exigências nem limites, fabricavam filhos psicóticos. Ou não, que a responsabilidade era do pai, que não tinha sabido fazer o corte edipiano – como se tudo se encaixasse na triangulação edipiana, e na teoria psicanalítica, e na família burguesa – sim, mesmo que fosse uma teoria psicanalítica revista, seja por Klein, seja por Lacan.

Só que Bibi não procurava terapia para ser perfeita ou santa, mas sim para... Para quê, mesmo?

Aqui vamos fazer a lista do que Bibi procurava nas terapias, terapeutas e nos demais humanos que habitavam o mesmo planeta que ela, sendo indiferente que fossem mesmo humanos ou ETs, já que aqui estavam e aqui viviam. 

Lista das necessidades de Bibi: sossego, tranquilidade, paz (e essas três coisas significavam: pouco ou nenhum barulho, incluindo músicas, pouca ou nenhuma luz, incluindo a do sol; ou seja, pouco ou o mínimo de estímulos exteriores, já que sofria de excesso de estímulos internos); acolhimento verdadeiro que, para ela, significava ser compreendida emocionalmente e ser aceita com seus erros, defeitos, pecados e crimes, desta e de outras vidas passadas (caso existissem, mas era bom já incluir tudo). Tolerância, num mundo onde a tolerância era tão prestigiada, mas quem realmente era praticada era a intolerância, e essa necessidade de mudar o Outro. E acima de tudo, nas suas terapias, Bibi precisava que os terapeutas, mesmo que não fossem junguianos, tocassem sua alma com a alma quente deles, não com seus intelectos frios – e também que não ficassem querendo que Bibi revisasse toda sua vida, mudasse de rumo e se “reeducasse”.

Isso de reeducação era uma pedra no sapato, um tiro no peito, um soco no estômago, uma injeção na testa. Se reeducar para quê, por que, e, acima de tudo, sob quais critérios? Se adequar? Adaptar? Ser socialmente aceita? (Isso poderia ser dito há décadas atrás, quando a psicologia se prestava a isso). 

Foi exatamente isso que as religiões fizeram (e fazem), adestrando humanos para viver numa sociedade completamente doente, enlouquecida. E só quando todos forem iguais é que os religiosos podem ter sossego, porque cada um que escapa ao adestramento é uma ameaça à fé que possuem. Esse é o princípio da evangelização, da catequização, da tentativa de converter quem pensa diferente às suas crenças, o princípio da propagação das crenças. Esse é o princípio não só das religiões, mas das filosofias ou psicologias (e, inclusive, das loucuras) – todos têm que aceitar seus a priori, sob pena de ver tudo lançado no fogo ou ao chão, caso não lhes deem sustentação coletiva. 

Isso no passado das psicoterapias. Mas no hoje, diziam que ela precisava mudar para que não sofresse tanto. Para ser feliz. Volta, aí, a questão da felicidade, e entra, junto, a do sofrimento. 

Ser feliz, Bibi não se importava mesmo, nem tanto por achar que não era relevante, mas por sentir que não conseguiria ser feliz nunca. E sofrer menos, como? Bibi não conseguia imaginar que viver num mundo como o nosso, com tantos problemas, tanta loucura de tudo que é tipo, um mundo caótico, despedaçado, em vias de extinção pelo próprio humano, um mundo poluído, ferrado, destruído, desigual, injusto, cruel, violento – e, aí, entravam questões não só naturais, mas também, claro e principalmente, as culturais –, pois num mundo como esse era impossível não sofrer. A menos que se fosse completa e totalmente fora da realidade, ou imbecil (ou se fingisse muito ser), ou psicopata. 

E Bibi não conseguia sair totalmente da realidade (ainda não tinha conseguido, mesmo que tivesse chegado perto, sobrando-lhe, portanto, e apenas, sair da realidade literalmente, se suicidando), não era psicopata, sem empatia com nada nem ninguém, não era imbecil e também não conseguia fingir, por que a farsa era muito clara, óbvia de se ver, e facilmente desmascarada (caso se encontrasse sob máscaras, o que a cada dia acontecia menos). A farsa já não tinha como se esconder, ao menos para Bibi; era impossível não vê-la, não ouvi-la, não cheirá-la, não senti-la em toda sua pestilência. 

Resultado: Bibi sofria, sim, não era feliz, mesmo, e nem queria sê-lo (mesmo que conseguisse, o que não era o caso). Não sabia ser feliz sozinha e nem desejava isso. Tudo lhe doía, tudo lhe afetava, as pessoas, os bichos, a natureza revolvida, tudo era ela, e ela era tudo. Fim. (Por enquanto e desse assunto).

E não era só o passado que era um problema, mas o tal do futuro também. Bibi não conseguia imaginar um futuro (a menos que fosse uma distopia). Quanto mais vivia mais tinha certeza que futuro não existe, e que a filosofia de Sartre, segundo a qual "o homem existe porque se lança para o futuro, projeta-se conscientemente no futuro" era uma bobagem, já que ela não via futuro nenhum em nenhum lugar. Sartre só serviu pra fazê-la descobrir por que não existia (como ela sempre desconfiara). Ela não existia porque nunca tinha visto futuro nenhum para se projetar. 

Ora, que tão pessimista é essa Bibi. Sim, pensava e sentia ela, pode ser que amanhã seja um novo dia. E será – para quem estiver vivo. Mas há novos dias que são piores, muito piores, que os dias anteriores. Era tão problemática, (ou sem ilusões?), a Bibi, que acreditava em qualquer coisa ruim para o futuro; quanto ao passado e presente não precisava acreditar, por que era só ver o que aconteceu ou estava acontecendo.

Bibi sentia que tudo era instável, profunda e totalmente instável, desequilibrado, que tudo era diferente a cada segundo, e que, portanto, tinha toda razão de ter medo. As pessoas não tinham noção de como tudo era apavorante? De como tudo era muito, muito frágil, muito rápido, muito fugaz, e só o instantâneo existia e, puf, sumiu? Pois Bibi sentia até o enjoo de estar sobre um planeta rodando muito rapidamente, de estar sobre um planeta formado por magma fervendo e borbulhando, e estar sobre uma casquinha muito frágil de algo sólido em cima de placas tectônicas deslizando, e tudo caminhando, também muito rapidamente, para o fim, ou para o buraco.

Sim, humanos que me leem e tentam (ou não) compreender Bibi, “Bingo!”, pode ser que digam alguns de vocês, “esse é o problema de Bibi, a morte.” Ledo engano. A morte era a solução de Bibi, a única saída real desse caos todo em que vivia, e a única razão dela continuar viva era estar sempre perto da porta. Ela sempre se postava perto da porta, para que pudesse escapar quando necessário – ou quando fosse insuportável continuar, o que dá na mesma. 

Sim, humanos, ela tinha medo. Sim, ela estava sozinha, profundamente sozinha, e tinha consciência disso. Sim, ela estava desesperada. E sim, ela não sabia como vai ser amanhã. Assim como todos vocês, assim como todos nós, Bibi também não sabia fazer aquilo que todos não sabemos fazer, mas tentamos ou fingimos (o que, pelo menos, funciona). Como Bibi tinha extrema consciência da fragilidade de tudo, inclusive das invenções que fazemos para tentar sobreviver, e ser feliz, e sofrer menos, e, e, e, Bibi não era funcional.

E, por se saber não funcional, por saber que nunca se adaptaria a esse mundo, que sempre vivera na tangente, pendurada sobre o abismo, e que a qualquer momento poderia ser centrifugada da vida, Bibi sabia, sim, que a morte era a única salvação. E por isso, sempre tinha avisado que ia vazar. O que a maioria não levava a sério, pois pensavam que cachorro que late não morde. Mas Bibi sabia que cachorro que muito late, morde. Mais cedo ou mais tarde, ele morde. O latido é só um aviso, "eu vou morder, sim".

E Bibi viveu latindo, até que vazou. Soltou a linha. Por isso eu disse no começo, humanos, que ela não leria isso aqui. Porque Bibi não é mais. Foi, não gostou, e deixou de ser, como convém a quem, realmente, busca o não sofrimento. 

E para os que ficaram com pena, com um sentimento de “oh, ela vazou, mesmo”, pensem que, no fim, o que sobra são as histórias, como esta aqui. Somos todos, apenas, histórias. Contos, crônicas, romances, lendas – alguns, mitos. Mas somos, todos, histórias, no final.

Essa é uma das de Bibi, a sabida.

Eloisa Helena Maranhão 

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