13 julho 2015

Mar oceano


"Contar-se-á talvez, um dia, que também nós,
marchando para o oeste,
esperávamos atingir uma Índia, - mas que
o nosso destino foi encalhar perante o Infinito?"
(Nietzsche)

“Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?”
(Vasco Gato)


Conta-se que naqueles dias o sol nunca deixava de brilhar. Alaranjava as águas do Mar Oceano, avermelhava ao meio-dia, amarelava levemente quando era inverno... Mas não se punha nunca, o sol. Quem saísse a singrar naquelas águas havia de estar preparado, e não se queixar das dores de cabeça, nem da sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia. Sempre era dia. Ainda não havia noites, ali.


Ele não tinha perna-de-pau. Nem olho-de-vidro. Nem cara-de-mau. Pelo contrário, tinha olhos tranqüilos, fluidos, de longos cílios negros, que olhavam com doçura. Mas era pirata. Dos bons. Ou melhor, dos maus. Hão de ser maus, muito maus, os piratas. Até o próprio nome – bíblico – havia mudado. Escolhera uma letra que o identificava naqueles mares.

E passavam por ele navios, e aviões que o sobrevoavam, e naus e embarcações de todo tipo, e os navios maiores que faziam cruzeiros eram os que mais o enchiam de espanto e furor. Aquela gente toda sem saber para onde ia, dançando nos convés, nadando nas piscinas, refestelando-se em jantares cujas sobras jogavam no mar, que nem para os peixes serviam, estavam já podres. E quantos náufragos boiando ficavam por ali, acompanhando os navios com seus olhos famintos, tentando sobreviver dos restos. Atirava com seus canhões, queria afundar aqueles navios abarrotados de gente inútil.

Ninguém via os escombros todos por baixo da superfície. Nem sentiam o cheiro da podridão dos navios. Não notavam as manchas de óleo no mar. Nem os navios fazendo água. Do ninguém exclua nosso pirata. Ele sabia.

Passava a vida navegando e escrevendo. Era pirata escritor. Vivia de naufragar navios oficiais, dos saques que conseguia roubar das caravelas apinhadas com ouro e prata das Américas, das moedas e patacões que readquiria dos corsários, sempre tão bem remunerados, com suas cartas de reis e rainhas. 

Escrevia e lançava ao mar. Em garrafas arrolhadas, ou soltas ao vento, suas idéias e palavras eram lançadas ao mar. Sempre haveria quem as encontrasse e aí poriam brotos dentro desses, terreno fértil para palavras e idéias de um pirata sonhador.

Conta-se que, por vezes, sua caravela ia apinhada de gente. Toda sorte de gente encontrada naqueles mares, e eram náufragos, e eram putas procurando outro destino, e eram pobres e condenados do continente procurando a América e as ilhas do Pacífico, e eram escravos jogados pelos navios negreiros ainda com resto de vida, e eram velhos sem destino, abandonados, e eram crianças também abandonadas ou fugitivas, e eram amores passageiros, mas que pareciam duradouros, e eram amores duradouros, pelos quais não se daria um tostão, de tão instáveis que pareciam.

Mas por outras vezes sua caravela, navio-fantasma, vagava solitária, como solitário ele estava, sem ninguém, e sem comida, e sem água, e sem pássaros que o acompanhassem, e sem lua nem estrelas. Ainda eram tempos sem noite, aqueles. Ele suportava o sol e a solidão, sem opção.

Sempre escrevendo, em quantas línguas soubesse e inventasse, vai que alguém que não sabe língua nenhuma, ou que, de tanto sabê-las, esqueceu-as, e elas já não lhe fazem sentido, vai que esse alguém encontra sua mensagem e entende. Vai que alguém no Mar Oceano precisa dessa mensagem em alfabeto inventado. Urgia encontrar esse alguém.

Ela não tinha nome. Colocavam-lhe os nomes que queriam, quando passava em sua jangada perto das praias. Atracava, pegava água doce, consertava a jangada, passava uns tempos na terra e voltava ao mar. 

Era jangadeira. Nascera em terra firme - era o que diziam -, mas tinha-se lançado ao mar desde que notara que a terra não trazia segurança alguma. 

Conta-se que, quando notou que também o mar não era garantido, era tarde. Já estava ao sol, pele ressecando a cada dia, o suor salgado escorrendo na boca sedenta. Não se queixava. Não tinha opção. Navegar é preciso, viver não é preciso. Bendita Escola de Sagres, que constrói embarcações e sabe que navegar é preciso. Lançou-se a navegar.

Era tudo que sabia fazer. Ou que precisava fazer. Navegar. Manter-se flutuando, mesmo que à deriva. Aprendeu a fazer jangadas, pois caravela era coisa de corsários, tripulação oficial ou piratas. Não era uns nem outros. Era jangadeira. Nem nome tinha.

Também recolhia náufragos, putas, loucos, pobres, condenados, velhos, fugitivos, cães sarnentos e gatos doentes em sua jangada, que logo deixava nos portos, ou em outras embarcações que a abordassem. Não sabia o que fazer com gente. Não gostava de seguidores. Nem de seguir. Melhor que cada um encontrasse seu caminho. Ou inventasse um. 

Tocava flauta andina embalando-se a si mesma, e atabaque para espantar os peixes grandes, os tubarões que se aproximavam perigosamente da jangada, índia e negra de cultura iletrada, só sons, se fizeram dentro dela. Cafuza dos mares.

Nem sabia a urgência que sentia de uma mensagem, quando achou uma garrafa com um papel dentro. Abriu e leu. Não estava em língua nenhuma conhecida, mas ela leu. Aquela era sua linguagem, que havia inventado há tanto tempo, para se comunicar consigo mesma. Tudo que escrevia era tentativa de falar consigo, e depois virava fogueira para assar peixes. Papéis serviam para isso, assar peixes saborosos. Ou virar colagens para enfeitar a jangada. Jangada colorida era essencial.

A mensagem tomou conta dela. Falava dos navios oficiais, dos jantares desperdiçados, e de pirataria, e dos escombros que ninguém via – só ela -, e do cheiro de podridão do Mar Oceano. Ela também sentia aquele cheiro, e vagava no meio daqueles escombros. Tinha passado a vida tentando manter-se à tona, desviar deles, e ajudar náufragos.

Outras mensagens chegavam à jangada. Tornou-se emergencial ler aqueles textos, respondê-los, saber de onde vinham. Era sua língua, desconhecida de todos, mas alguém sabia! Quando se tornou aléxica de tanta palavra que tinha dentro de si, de tanta leitura, perdeu a capacidade de se comunicar, e nem mais lia e nem conseguia escrever, também, e nem falar, tudo que soubesse a linguagem perdeu o sentido, e era uma surda-muda-analfabeta solta no Mar Oceano, e nem sinais já conseguia reconhecer, e quanto mar havia para entender, mas estava sem significação alguma. 

Aquelas mensagens restituíram nela a leitura e a compreensão do mundo. E a escrita. E a fala. Sentiu novamente a urgência da comunicação.

Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele. Que tinha costas largas e braços compridos bons de abraçar, peito firme que dava sustento a uma cabeça cansada de navegar.

Ele continuou pirata. Ela manteve-se jangadeira. Mas tinham-se um ao outro, agora. Isso bastaria por uns tempos. 

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois. 

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.

Eloisa Helena Maranhão

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