02 agosto 2015

Flauta de Pã

“O harpista largou sua Flauta de Pã e com 
a voz humana cantou suas melodias infinitas”. 
(Borges, "O Aleph" )


Andava pela floresta como quem conhece cada trecho dela; conhecia as curvas dos pequenos e raros riachos, conhecia cada pedra do solo, e as folhas de cada árvore, cada arbusto que crescia nos buracos mais ocultos; conhecia as luzes por entre as folhagens, e as sombras de cada momento do dia; vivia ali, sozinho, desde tempos que não podia contar, e o mais longe que tinha ido era até a orla, naquele limite onde a vegetação escasseava e o descampado se fazia ver.


Naquele dia não andava como sempre, automaticamente, pulando à procura de alimentos, ou apenas sentindo o ar morno na pele grossa e nos cabelos encaracolados; naquele dia procurava bambus, de várias espessuras e tamanhos, sem rachaduras, da madeira mais macia, mas mais resistente também. Na noite anterior, enquanto dormia, havia sonhado; e aquele era o dia de colocar seu sonho em prática.


Sonhara que tocava uma flauta de bambus, amarrados entre si com cipó, uma flauta em forma de um pequeno trapézio; e em seu sonho sua música despertava o que estava adormecido, trazia à existência o que era oculto... em seu sonho tocava sua flauta e todos os seres dele se aproximavam, encantados, e dançavam felizes em roda por estarem trazendo à tona o que jazia submerso nas suas profundezas.


Movido por esse sonho, o deus-menino procurava os bambus que serviriam para fabricar sua flauta, a primeira e única de sua longuíssima existência, que o acompanharia, envelheceria e ficaria escura como sua pele tostada ao sol, a cada ano que passasse.


Reunidos os bambus, depois de experimentar cada som, Pã sentou-se numa pedra da clareira e começou a unir os tubos; tudo estava em silêncio ao redor dele, e apenas sua voz se ouvia na floresta, sussurrando aos deuses, pedindo que conseguisse completar sua missão, dada por eles mesmos em seu sonho.

O ar estava parado, como nuvem sobre a clareira, nenhum animal olhando, era Pã e sua solidão, absoluta; os deuses haviam-lhe voltado as costas, para que ficasse só e construísse o instrumento que serviria para fazer emergir o que cada pessoa tinha de melhor dentro de si; e para isso Pã precisava estar sozinho, sem olhos que o espiassem, sem sons que atrapalhassem seu intento, sem luzes que iluminassem antecipadamente o que tinha momento certo para ser revelado.

Já era noite, e sem lua, quando o deus terminou sua flauta... experimentou os sons dela, mas sabia que o lugar certo era fora da floresta, na cidade dos humanos, e que eles lhe agradeceriam por seu esforço e missão.

Foi caminhando lentamente, contando os passos, sentindo nos dedos a textura da madeira, seus contornos, e antecipando a reação dos mortais quando a tocasse perante eles.

Logo que o sol nascia Pã entrou na cidade; as pessoas saíam de suas casas, as ruas estavam apinhadas, a praça central cheia de gente em seus afazeres; mulheres enchiam cântaros de água, homens negociavam em pequenos grupos, crianças corriam e brincavam entre cachorros, mulas, aves e cabras...

Pã saiu da floresta com sua flauta, parou em frente aos humanos e tocou.

Logo que aquela música dissonante começou a ser tocada, os ouvidos humanos passaram a zumbir, o ar tornou-se irrespirável, as cabeças doíam terrivelmente, e os sons que deveriam remexer as pessoas por dentro, que deveriam ecoar dentro delas, agitou-as por fora, fazendo-as correr desesperadamente.

Em pânico puseram-se em fuga da presença daquele deus híbrido, metade homem metade cabra, aquela figura tosca que lhes despertava as consciências; atropelavam-se até caírem exaustas, gritando e tapando os ouvidos, enquanto Pã olhava surpreendido, sem entender por que motivo os mortais tinham tanto medo de ouvirem a si próprios.

Eloisa Helena Maranhão