30 outubro 2015

Aracne, a tecelã de (falsas) teias.

"Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?

Muito embora nada tenhas,

estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma
na imensa tearia..."
(Mauro Mota)

"Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo." (Cecília Meireles)


Aracne era tecelã. Era seu ofício e seu saber. Não fazia outra coisa a não ser tecer. Te-ser. Te-ser-se. Teias, muitas teias. Regulares, bem organizadas, mas, muitas vezes, absolutamente irregulares, e isso dependia do seu estado momentâneo. Aracne produzia o que conseguia, e não o que considerasse melhor, ou que desejassem para ela.
Algumas teias ela deixava incompletas, outras terminava e nelas habitava até que se desintegrassem. De outras tantas, mudou-se quando enjoou daquelas formas. Aracne gostava de experimentar formas. De experimentar a flexibilidade ou a viscosidade dos fios. Ela gostava de tentar.
O problema de Aracne (afinal, humanos, todos têm algum problema, ninguém é um solucionado completo, e Aracne não escapava dessa sina), o problema é que o tentar de Aracne não tinha um fim, uma finalidade, algo a ser conseguido... Era, simplesmente, tentar, mesmo, continuar tecendo enquanto aguentasse...
Pobre Aracne (ou rica, se se pensar que, pelo menos, ela perdendo as ilusões, ganhava experiência). Ficamos assim, para evitar injustiças: Aracne era pobre e rica. Provavelmente como todos os humanos. Mesmo ela não sendo humana, mas isso não vem ao caso, já que na Terra vivia, e com os humanos convivia. E, às vezes, também tentava ser como eles, mas só às vezes, e cada vez menos vezes.
Ela nunca havia pensado nisso antes, mas foi percebendo que a maioria das pessoas tem uma finalidade que persegue, faz planos, tem projetos de vida... Aracne nunca teve... Nem queria ter... Talvez até quisesse, ou tivesse querido um dia, mas com essa coisa de perder as esperanças, de dar adeus às ilusões (Aracne e Elizabeth Taylor), talvez fosse mais simples, mais cômodo e menos doloroso pensar que ela própria não queria ter uma finalidade. Talvez. Por que talvez, também, fosse mais complexo, mais incômodo e muito mais doloroso pensar que não tinha finalidade por que essa nunca tinha existido, pra ninguém. Ou por que ela era incapaz de conseguir isso. De qualquer forma, não querendo, ou querendo, a dor estava ali.
Aracne não se importava muito com isso de não ter finalidade na vida, de não tecer objetivos, mas só as teias, que eram extensões de si própria. Não era uma coisa que fazia diferença pra ela...
A sensação que tinha é que tudo que fazia e já tinha feito havia sido instintivo, uma necessidade básica e absolutamente impostergável na ocasião em que as fizera, como as opções seguidas, as decisões que tomou – e se responsabilizava por todas elas, não porque se sentisse moralmente obrigada a essas responsabilizações, mas porque se sabia socialmente chamada a se responsabilizar pelo que acontecia com ela; fazia parte do jogo. Não podendo retirar-se do jogo no momento, Aracne jogava como podia.
Ela, realmente, não se sentia responsável no sentido de escolhas, de ter optado por algo, mas no sentido de aquilo ter acontecido em sua vida; e ponto. Cada ocasião ou situação ou acontecimento tinha sido apenas uma entre as tantas opções que poderiam ter sido... Aracne nunca se sentia andando ou tecendo "um" caminho que levasse a algum lugar específico... Era adepta (Aracne e Antonio Machado) por opção, ou falta dela, do “caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao caminhar”.
Outro possível problema de Aracne, ou não, é que nossa tecelã preferida (não é sua tecelã preferida? A minha, é), é que Aracne não confiava em nada nem ninguém. Oh, diziam os incautos, os julgadores, os cheios de pedras nas mãos pra tudo que escapulisse um tiquinho que fosse ao senso comum, que horror ser desconfiada assim, que terrível um ser tão sem confiança! Confie, diziam, confie, Aracne, que sem confiança você não chega a lugar algum. Mas como lugar algum não existia, que diferença fazia se confiava ou não?
Mas ela era assim (vou defendê-la, tá, já que é minha tecelã predileta, e é muito triste só ter algozes, promotores e juízes, e nenhum advogado), ela era assim, sem confiança, porque sabia, perfeitamente, que não existia algo como Absoluto, ou Verdade, para que se confiasse... Ou seja, Aracne não era desconfiada, ela, simplesmente, não tinha confiança. Confiança não era um conceito dentro dela, nem tinha significado no seu dicionário. Para ajudar a compreensão dos difíceis de compreender, é como ser imoral ou amoral. Aracne, no caso da confiança, era uma não-confiada, e não desconfiada. Entendeu? Não? Sinto muito. Ou melhor, não sinto muito nada. A questão, aqui, é falar de Aracne.
Confiança, esperança são conceitos ligados a algo concreto (ou abstrato, mas concreto no sentido de existir) que alguém sabe, conhece, e pode ser partilhado... Para Aracne, esse saber (do Outro, nem dela mesma) nunca existiu, era tudo construções, era como uma imensa rede infinita, fluida, sem bordas, sem limites, uma rede onde ponto algum era central, ou Absoluto, ou se podia colocar como ponto de partida... Mesmo tecendo sua teia a partir do centro, Aracne sabia que centro também é constructo social, conceito abstrato, para poder se partir de algum lugar. De algum lugar tinha que partir, e não importava que lugar fosse esse, desde que fosse tecendo suas teias, que esse era seu único mister.
Além disso, ela também sabia que nada podia ser partilhado, que a esmagadora maioria das experiências e sentimentos é incomunicável... Qualquer comunicação era da superfície, nunca de algo mais profundo, que as profundezas eram o lugar do inacessível e, portanto, do não transferível, do não compartilhável... Os abismos, precipícios, as fossas abissais onde se situava o seu centro – inventado – nunca vinham à superfície.
Aracne já havia nascido nessa rede sem ponto central, e sabia que esse ponto não era real, era apenas uma ilusão para se situar, se sentir firmada em algo... Ela vivia sentindo os pés sem chão, o chão, inexistente, jogada sobre algo sempre móvel, escorregadio, que mudava constantemente ao sabor do nada... Seus deuses, por isso mesmo, eram apenas o Acaso e a consorte dele, Aleatória...
Tanto fazia, para ela, se era dia ou noite, sol ou chuva, frio ou calor, férias ou trabalho exaustivo, tanto fazia o que quer que fosse, porque tudo ia passar – tudo já era passado, mesmo sendo presente ou parecendo futuro... E tanto fazia porque tudo era imutável, inclusive ela. Aracne vivia num presente contínuo, num embuste repetitivo, ad nauseam.
Para ela não havia um lugar, um topos definido, ela vivia literalmente na utopia, era a sem-lugar. Também não tinha um tempo cronológico ou organizado, nem coordenada alguma que a situasse, que servisse para lhe segurar na vida, para lhe dar um ponto de partida ou de chegada... Vivia solta num espaço amplo demais, hostil demais, vertiginoso demais, eternamente dependurada, e se prendia apenas por um fio, num ponto de tangência que, a qualquer momento, poderia jogá-la pra fora desse universo em que vivia... Um universo sem sentido, sem nexo, sem vinculação, sem encadeamento, sem conexão, sem liame, sem relação, sem associação, sem junção, não era elo de cadeia alguma. Era uma sem-link, Aracne.
Também era a sem-futuro, a sem-noção... Sem noção do que quer que fosse, apesar de parecer mais ou menos lúcida, bem orientada, de conseguir viver razoavelmente – por algum tempo, ou em algumas fases – na tal da “realidade” em que via os humanos viverem.
Mas não se afobem incautos, porque essa realidade, para ela, não era absoluta nem tinha valor algum, era apenas o lugar onde ela se encontrava no momento... E de onde não saía, tanto por ser cômodo quanto por não ver outra opção... Sair de onde, e para onde?  Buscar o quê? Buscar... Nunca buscou nada, as coisas simplesmente aconteciam, e eram aceitas com naturalidade... O que era, era, e ela não via como mudar as coisas, porque as mudanças também lhe pareciam tolas, já que mudar era apenas mudar circunstâncias, e nunca o “cerne” – justamente porque cerne, centro, miolo, medula, essência não existiam. Tudo era tudo e era nada.
Aracne, por isso, se apegava muito a uma rotina qualquer que fosse, rotina esta, obviamente, inventada, como todas as rotinas de todos os humanos, e tinha uma necessidade – que pareceria doentia, talvez – de tornar coisas em absolutos: seus amores, sua casa, suas teias, seus animais de estimação (entre eles um elefante fabricado por ela mesma, com seus parcos recursos, e um unicórnio azul que encontrou na rua e resolveu ficar com ele. O dono que o procurasse e lamentasse sua perda, se quisesse, por que ela não o iria devolver, nunquinha).
Inventava esses absolutos por extrema necessidade desse ponto de amarração de sua vida, que não existia (a amarração nem a vida), e era a fonte de seu total desespero... Odiava viajar, por exemplo, pois qualquer lugar no mundo era um lugar qualquer, e como não tinha pra onde ir, nem pra onde voltar, preferia não sair... Preferia não, não tinha condições de sair, de buscar nada, porque sabia que nada havia a ser buscado, e nenhuma saída levava a lugar algum... Além disso, para onde quer que fosse ela se levaria a si mesma, o que não servia de fuga, pelo contrário. Era prisioneira de si mesma e de suas teias.
Era uma mulher-aranha, Aracne, sempre tecendo e tecendo e tecendo, e se protegendo dentro de seus tecidos, de sua teia, criando casulos em volta de si com sua própria secreção. Aracne se protegia da hostilidade ao seu redor com seu próprio corpo e fabricando, ela mesma, essa proteção. A única que podia surtir efeito.
Ela pensava, e pensava muito, em tudo, em todos, em si mesma, na vida... Mas era um pensar a partir de nada, um pensar sem medula, sem esqueleto que o mantivesse de pé... Pensava em tudo que lhe passasse pela cabeça, ou diante dos olhos, ou que lhe entrasse pelos ouvidos...
Mas não era um pensamento com referências, eram pensamentos aleatórios, variados, coloridos, varados de tons, sons, cores, formas diversas... Seus pensamentos nunca formavam uma teoria, mesmo porque ela nunca acreditou em qualquer teoria... Uma teoria exige vínculos, nós, ligações entre pontos, contato... E os pensamentos dela eram impossíveis de ligações, de conexões, de causas e efeitos, de consequências... Seus pensamentos poder-se-iam chamar de puros, solitários, unitários... Cada pensamento era único, desencadeado, sem possibilidade de encontrar um par... Aracne era ímpar em tudo...
Mas sosseguem os empáticos, os sensíveis, os que conseguem colocar-se no lugar do outro, e que estão sofrendo ou preocupados com Aracne e seus desvarios. Pois ela acabou se dando bem, acreditam?
Foi quando se encontrou com Átropos, a Moira, e, enfim, teve seu fio cortado. Abençoada Átropos, que, finalmente, soltou a linha de Aracne, desfazendo sua sina de tecer e tecer e tecer. Não mais fios, não mais teias, não mais Aracne.
Assim terminam, verdadeiramente, todas as histórias reais, como a de Aracne. A de Aracne, a minha e a sua, também.
Eloisa Helena Maranhão

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