10 junho 2016

Stultifera navis

“Eu quero ser da legião dos grandes mitos, transformando a juventude num exército de aflitos.”  (Sueli Costa e Abel Silva, “Cordilheiras”)

Era música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Um rei ruivo, de cabelos encaracolados, encharcado de dor e sensibilidade. Atolado nas difíceis decisões do poder. Lutando contra seus instintos, tentando dominar-se, mas que domínio pode ter sobre um povo alguém tão intenso e tão radical. Ela ouvia aquela voz grossa, suave e rouca que dava uma vontade insana de chorar. Se ele um dia cantasse uns versos que fosse para ela, não precisava ser uma música inteira, ela começaria a chorar e não pararia nunca mais. Não, nunca não é tempo demais nem exagero nem hipérbole. Ela desataria a chorar devagarinho e para sempre, um fio de aguinha de lágrimas que formaria um riacho dos pequenos, mas profundo, e esse igarapé de lágrimas contínuas viria do presente para o futuro, pelas vidas que ela já teve e teria, uniria todas suas vidas, molharia seu carma, ensoparia o cosmos, o éter, sabe-se lá como se chama o onde ficam os espíritos, aprendendo e ensinando, dizem, mas não sabendo nunca. Se soubessem, meu Deus!, não teriam de voltar tantas e tantas vidas mais. Mas ela nunca mais pararia de chorar. E também nunca mais voltaria, se recusava a manter rodando essa roda da fortuna, esse ciclo indiano, me deixem em paz, baby, leave me alone. Como Ava Gardner.
E tanta água seria, como tanta luz havia naqueles lugares, no onde dos seres espirituais, que são mestres na navegação na luz, mas nada sabem de água, e muitos, inclusive, já se afogaram em outras vidas, e por tempos ficaram presos nas águas revoltas e escuras dos mares, e nas águas lamacentas de rios, e nas águas paradas de piscinas domésticas, até que uma empregada, gritando feito surtada, ai, meus jesus, maria, josé, acudam que o bebê está boiando!
E uma noivinha sem graça, de buço e roupas pretas, lamentava-se, tem piedade, senhor, meu Manoel se afogou.
Uma menina de tranças e pernas fortes de pelos dourados, ele não voltou, mas vai voltar, sei que vai, tem que voltar, e morreu cuidando do horizonte, perscrutando o mar com olhos baços de velha virgem, ele não voltou. Deve estar navegando em oceanos de luz, e ela, onde?, onde estará a menina velha de olhos baços rosto enrugado olhos espremidos de busca frustrada cabelos amarelados e enfraquecidos que deixou a vida passar de amor fracassado e tanta espera.
Ela escutava músicas dentro de si. Alucinações auditivas, diria um psiquiatra. Como as do apóstolo Paulo, escutando um profeta judeu recém-crucificado falando em seu ouvido. Para outros, eram as almas dos ancestrais que lhe ensinavam músicas... Para ela, era só música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Em sua confusão ela (ou ele?) procurava cabeças perdidas... Todo mundo vivia perdendo a cabeça... Andava rolando as cabeças perdidas que achava, numa rodinha, como pneu rolado num arame...
Teceu seus cabelos num tear, queria um tecido castanho-avelã da cor de cabelos e de crina de cavalos, uma manada de cavalos galopando em debandada, conseguiu... Fez uma mortalha com ele e guardou, um dia poderia precisar de uma mortalha de cabelos cheirosos de cascas de cebolas fervidas, que usava para torná-los avermelhados...
Um dia podia precisar de tanta coisa, sempre essa carência, esse desejo insatisfeito, essa necessidade nunca sabia de que.
Nunca atravessava o portal, tinha anjos guardiões lá, inflexíveis em sua rigidez de guardiões, sua monstruosidade de funcionários públicos incorruptíveis, não se entra e não se sai, não antes da hora. A hora nunca era. A hora não existe. A hora é invenção humana, não vale no cosmos, ou fora dos humanos. Nunca podia atravessar o portal. Estavam condenados ali mesmo, sempre, até chegar a hora. Que nunca chegava. Que não podia chegar, por que não era, por que não existia, por que é constructo.
Queria extrair o infinito do finito, exaurir a polpa do finito até sobrar só a casca, mas finito e infinito também são constructos humanos, invenções psíquicas, ilusões da mente, mente também é invenção do corpo e ilusão humana, estavam condenados. Só a exaustão era real, a condenação, e o portal que não se atravessa nunca.
Era vagar de porto em porto, nunca descer, não se pode atravessar os portais, há arcanjos guardiões em todos os portais, rígidos em sua incorruptibilidade, monstruosos em sua inflexibilidade, era navegar e se manter à tona nos rios, nos mares, nas águas dos igarapés, ninguém desce, os humanos não suportariam a visão do caos daquela música, daqueles cabelos de mortalha, daquela manada de cavalos em debandada, rei confuso tocando louvores inúteis.
Os sinos tocavam, só se podia ouvi-los e vê-los de longe, não há guardiães de sons nem de olhos, não há arcanjos que nos guardem das sensações, estavam condenados a sentir e ouvir e olhar e suportar, vagando e navegando, stultifera navis.
Uma velha índia queimada olhava a nave, uns olhos amarelos de ave, um deus hindu e uma orixá africana de tranças rastafari dançavam tango aos rodopios, uma herege com os cabelos ensopados de tempestades voando nua, um cruzado enterrado sob uma árvore, uma cafuza batendo compulsivamente no seu atabaque, uma mulher que lia galopava um centauro no caramanchão, um pirata enlouquecido olhava tudo sem nada compreender, uma sereia cobria os olhos com os cabelos e desviava o olhar, uma aranha subia e descia na teia, tecendo e tentando, um soldadinho de chumbo tentava fugir no primeiro trem, uma bailarina fazia piruetas desengonçadas, milhões de crianças corriam desenfreadas e gritando, Lou Salomé acenando seu lenço na estrada, sem obter resposta, um filósofo abraçava um cavalo, da manada em debandada, chorando desconsolado, um pastor vagava nas praias e desertos buscando, nenhum profeta nem redenção, Sísifo rolando pedras, um bicho do mato abraçado num urso, espiando da orla da floresta, uma mulher e um homem cavando em volta de um carvalho, um autista pra frente e pra trás num ritmo agonizante, um almirante negro, uma puta, um louco e um cão olhavam espantados, um menino na árvore e um mico-leão dourado no chão, Pã tocando sua flauta, o Minotauro exaurindo força da juventude grega condenada, Ícaro voando alto demais sob o angustiado olhar impotente do pai, um matemático espantado com catenárias, uma revolucionária olhando tudo sem nada fazer, afogada, pedra amarrada no pescoço, apodrecendo entre as algas, moída das mesquinharias e covardias dos normais. O corvo com suas asas estendidas, e uma colcha de retalhos que nunca ficava pronta. Stultifera navis.
Colchas de retalhos são invenções, artesanato, como teias, ferro-guza, altos-fornos, forjas, teares, agulhas, fábricas, palavras, teclados, tranças rastafari, as horas, nada era, só restava a música. Hallelujah. Um rei confuso tocando louvores. Cabeças perdidas roladas em pneus, enroscadas em arames.
Ninguém morreu, morte é invenção humana, ninguém viveu, vida é ilusão da mente que é ilusão do corpo.
Só existem a música, cabeças perdidas e um rei confuso tocando louvores inúteis. Hallelujah. A nau dos insensatos.

18 janeiro 2016

Se eu fosse morrer amanhã

"Posto que hades não existe, seguramente estás lá
último hotel, último sonho,
passageira obstinada da ausência
Sem bagagens nem papéis,
Dando por pagamento um caderno
ou um lápis de cor.
- Aceite-os, barqueiro: ninguém pagou mais caro
o ingresso aos Grandes Transparentes
ao Jardim onde Alice a esperava."
(poema de Júlio Cortázar para Alejandra Pizarnik)

“Não me pergunte por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti e por mim”. (John Donne)


Se eu fosse morrer amanhã eu não iria tomar banho de mar pela última vez, nem comeria manga madura, nem me entupiria de musse de chocolate, ou sentaria debaixo de um ipê pra sentir o cheiro das flores, nem deitaria na terra molhada ou tomaria chuva. Mas tomaria leite batido com chocolate e olharia com meus bigodes de espuma pro gato – que nunca tive – e lhe diria: “foi um prazer, gato, não ter tido você”. Também não leria um trecho do meu livro preferido, aquele que fala das formigas ruivas e do saco de ossos. Também não escutaria “Bicho de Sete Cabeças”, se eu fosse morrer amanhã. Porque eu já teria feito tudo isso a vida inteira, e não sentiria nenhum arrependimento do que não fiz.

Eu abraçaria e beijaria muito cada um dos meus filhos, e repetiria mais várias vezes quanto eu os amo, e como fui feliz por tê-los na minha vida, e como sem eles ela teria sido tão pobre; e faria isso para que eles aprendessem desde cedo que a gente morre porque tem de morrer e não por que quer. Gostaria que eles entendessem que minha morte não foi um abandono, nem falta de amor.

Eu também ligaria para cada pessoa que amo e que estivesse longe (e são tão raras essas hipotéticas pessoas), só para ouvir a voz delas, e levar esse som de amizade comigo. E para que elas também soubessem que morri por necessidade, e não por opção.

Se eu fosse morrer amanhã eu não pediria perdão por nada a ninguém, por estar implícito que tudo que fiz foi por amor, e se errei – e quanto errei!- foi sem intenção alguma de magoar, de ferir, muito menos, e nem mesmo de errar. Ou seja, quem erra com fé acerta até no erro, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado, e ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; eu gosto dessas frases, são um consolo pros vis como eu.

Também não escreveria uma carta-testamento - nem sou Getúlio Vargas - e nem deixaria bilhetes de despedida. Morreria e tchau. Hasta la nunca, baby. Talvez, num lapso de sentimentalismo brega, eu escreveria algo como “se eu fosse morrer amanhã”, e entraria pela última vez no meu e-mail para enviar aos conhecidos. Ou deixaria para enviar depois de morta, seria um e-mail das esferas, psicografado em bits e bytes.

Não pagaria dívidas de bancos, nem financeiras nem outros agiotas, que seguro só serve para isso, mesmo, evitar que herdeiros paguem esse tipo de dívida. Também não compraria caixão nem terreno em cemitério, nem lavaria a louça acumulada de semanas, enquanto me preparava para morrer, nem faria nada prático, que bom mesmo é morrer encantada, o corpo desaparecido ou levado por pássaros ou borboletas para um lugar muito longe e inacessível.

E minha morte nunca pareceria um suicídio - ainda que fosse - pra não deixar rastros de destruição sobre os, poucos, que amo.

Mas eu, se fosse morrer amanhã, pegaria o violão, nessa última noite, e cantaria baixinho para você “Gracias a la vida”, e faria amor essa noite quase inteira, sentindo de novo todos os gostos, os cheiros, experimentando todas as posições que porventura tivessem ficado perdidas, só para me deixar marcada em você. Pra que você chorasse e me chamasse, de saudades de mim. E que quando você me substituísse por outra – e eu desejaria de todo coração que isso acontecesse e você fosse de novo muito feliz -, então que você se lembrasse de mim de vez em quando, sem dor, por essa última noite. E por todas as outras também. E essa noite também me serviria para me fazer tão, mas tão feliz, que eu até gostaria que existissem outras vidas, e faria questão de voltar só para te reencontrar e te amar outra vez. Ou não.

Depois, dormiria o resto da noite só para sonhar, mesmo que fosse algum pesadelo, pra eu saber, no meio do sonho, que estava viva, ainda, e poderia acordar a qualquer momento. Morrer só é bom quando não se morreu de verdade. Ou não².

Por fim, se eu fosse morrer amanhã, gostaria de me abraçar ao Serra, ao Maluf, ao Sarney, ao Aécio, Bolsonaro, Alckmin - nossa, a lista é tão grande! - morrer abraçada ao Obama seria a glória, se tivesse esta oportunidade; porque teria bombas ou granadas amarradas no meu corpo, e levaria pelo menos um bastardo comigo, na minha morte. E morreria feliz, e acharia que minha morte foi menos inútil - assim como minha vida - por ter limpado o mundo de pelo menos esse imbecil.

Isso se eu fosse morrer amanhã.

Ah, se eu morresse amanhã...