18 janeiro 2016

Se eu fosse morrer amanhã

"Posto que hades não existe, seguramente estás lá
último hotel, último sonho,
passageira obstinada da ausência
Sem bagagens nem papéis,
Dando por pagamento um caderno
ou um lápis de cor.
- Aceite-os, barqueiro: ninguém pagou mais caro
o ingresso aos Grandes Transparentes
ao Jardim onde Alice a esperava."
(poema de Júlio Cortázar para Alejandra Pizarnik)

“Não me pergunte por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti e por mim”. (John Donne)


Se eu fosse morrer amanhã eu não iria tomar banho de mar pela última vez, nem comeria manga madura, nem me entupiria de musse de chocolate, ou sentaria debaixo de um ipê pra sentir o cheiro das flores, nem deitaria na terra molhada ou tomaria chuva. Mas tomaria leite batido com chocolate e olharia com meus bigodes de espuma pro gato – que nunca tive – e lhe diria: “foi um prazer, gato, não ter tido você”. Também não leria um trecho do meu livro preferido, aquele que fala das formigas ruivas e do saco de ossos. Também não escutaria “Bicho de Sete Cabeças”, se eu fosse morrer amanhã. Porque eu já teria feito tudo isso a vida inteira, e não sentiria nenhum arrependimento do que não fiz.

Eu abraçaria e beijaria muito cada um dos meus filhos, e repetiria mais várias vezes quanto eu os amo, e como fui feliz por tê-los na minha vida, e como sem eles ela teria sido tão pobre; e faria isso para que eles aprendessem desde cedo que a gente morre porque tem de morrer e não por que quer. Gostaria que eles entendessem que minha morte não foi um abandono, nem falta de amor.

Eu também ligaria para cada pessoa que amo e que estivesse longe (e são tão raras essas hipotéticas pessoas), só para ouvir a voz delas, e levar esse som de amizade comigo. E para que elas também soubessem que morri por necessidade, e não por opção.

Se eu fosse morrer amanhã eu não pediria perdão por nada a ninguém, por estar implícito que tudo que fiz foi por amor, e se errei – e quanto errei!- foi sem intenção alguma de magoar, de ferir, muito menos, e nem mesmo de errar. Ou seja, quem erra com fé acerta até no erro, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado, e ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão; eu gosto dessas frases, são um consolo pros vis como eu.

Também não escreveria uma carta-testamento - nem sou Getúlio Vargas - e nem deixaria bilhetes de despedida. Morreria e tchau. Hasta la nunca, baby. Talvez, num lapso de sentimentalismo brega, eu escreveria algo como “se eu fosse morrer amanhã”, e entraria pela última vez no meu e-mail para enviar aos conhecidos. Ou deixaria para enviar depois de morta, seria um e-mail das esferas, psicografado em bits e bytes.

Não pagaria dívidas de bancos, nem financeiras nem outros agiotas, que seguro só serve para isso, mesmo, evitar que herdeiros paguem esse tipo de dívida. Também não compraria caixão nem terreno em cemitério, nem lavaria a louça acumulada de semanas, enquanto me preparava para morrer, nem faria nada prático, que bom mesmo é morrer encantada, o corpo desaparecido ou levado por pássaros ou borboletas para um lugar muito longe e inacessível.

E minha morte nunca pareceria um suicídio - ainda que fosse - pra não deixar rastros de destruição sobre os, poucos, que amo.

Mas eu, se fosse morrer amanhã, pegaria o violão, nessa última noite, e cantaria baixinho para você “Gracias a la vida”, e faria amor essa noite quase inteira, sentindo de novo todos os gostos, os cheiros, experimentando todas as posições que porventura tivessem ficado perdidas, só para me deixar marcada em você. Pra que você chorasse e me chamasse, de saudades de mim. E que quando você me substituísse por outra – e eu desejaria de todo coração que isso acontecesse e você fosse de novo muito feliz -, então que você se lembrasse de mim de vez em quando, sem dor, por essa última noite. E por todas as outras também. E essa noite também me serviria para me fazer tão, mas tão feliz, que eu até gostaria que existissem outras vidas, e faria questão de voltar só para te reencontrar e te amar outra vez. Ou não.

Depois, dormiria o resto da noite só para sonhar, mesmo que fosse algum pesadelo, pra eu saber, no meio do sonho, que estava viva, ainda, e poderia acordar a qualquer momento. Morrer só é bom quando não se morreu de verdade. Ou não².

Por fim, se eu fosse morrer amanhã, gostaria de me abraçar ao Serra, ao Maluf, ao Sarney, ao Aécio, Bolsonaro, Alckmin - nossa, a lista é tão grande! - morrer abraçada ao Obama seria a glória, se tivesse esta oportunidade; porque teria bombas ou granadas amarradas no meu corpo, e levaria pelo menos um bastardo comigo, na minha morte. E morreria feliz, e acharia que minha morte foi menos inútil - assim como minha vida - por ter limpado o mundo de pelo menos esse imbecil.

Isso se eu fosse morrer amanhã.

Ah, se eu morresse amanhã...