25 outubro 2017

Canção para Roy e Pris

“Desilusão, desilusão, danço eu, dança você
na dança da solidão.” (Paulinho da Viola)


Eram inconquistáveis. Nem música adiantava. Tinha cantado algumas para eles, puxava da memória as melodias mais macias, as palavras mais sedutoras, e nada. Sentava e cantava, o coração naquela expectativa de resposta.
Se lembra da fogueira
Se lembra do balão
Se lembra dos luares, do sertão...
Não, andróides não devem recordar esse tipo de lembrança, mesmo os de última geração. Procurava outra música.
Images of broken light which dance before me like a million eyes
They call me on and on across the universe
Thoughts meander like a restless wind inside a letterbox
Theys tumble blindly as they make their way across the universe
Jai guru deva. Om.
Nothing’s gonna change my world…
Não adiantou. Nem sax tocando Us and Them, nem Vangelis; eram imunes à música, também.
Olhava para eles de soslaio, eles a encarando muito direta e friamente como “perdeu alguma coisa aqui?”. Desviava o olhar, era insustentável o que via dentro daqueles dois pares de olhos tão claros, tão sombrios. De tanta luz refletida. Só entendia a acusação, a indiferença e um “vocês hão de me pagar”. Não sabia qual era a dívida, mas entendia a cobrança.
E se acenasse, pagasse o mico de acenar, rir para eles, jogar beijo, piscar, implorar amizade, mas assim tão diretamente espantaria os dois, melhor tentar aproximação lateral, continuar na conquista, mesmo que levasse milênios para isso. Tinha tempo de sobra. Tempo era tudo que restava, sempre.
Resolveu contar uma história, voz baixa, mas que desse para ouvir, passou a manhã se preparando, e à tardinha, quando a respiração fica mais lenta e tudo que queremos são histórias, começou.
Conta-se que quando se miraram, a jangadeira e o pirata, jangada e caravela ladeando-se, numa dança sobre as águas, numa sedução que já não se lembravam como fazia, conta-se que o sol cerrou os olhos, deixando espaço para que se mirassem sem se cegar.

A noite desceu ali mesmo, sobre o mar antes avermelhado, e fez-se grande silêncio, carregado de significados. Nos olhos dela ele viu a lua, e ela sonhou estrelas nos cabelos e barba do pirata, e decidiu que singraria os sete mares com ele.

Pois agora, mesmo havendo sol quente, sede nunca saciada, o suor escorrendo salgado na boca seca, a pele ressecando a cada dia, agora havia lua e estrelas. E a noite saberia se fazer para os dois.

Conta-se que ainda hoje, para quem saiba ver, na hora da penumbra, quando o sol desce as cortinas e a noite começa a subir, ainda se vê jangada e caravela ladeando-se no silêncio do Mar Oceano.
Também não se deixavam enredar pelas palavras. As teias que tentava tecer não serviam de laços, nem por momentos.
Pareciam tão seguros, indiferentes a tudo de fora, centrados em si mesmos, só ela era estranha, forasteira, sentia o sol ardendo a chuva gelada, tremia de frio, de calor, de solidão, era só ela?
Sentia uma inveja afiada daquele vínculo entre os dois, aquela lealdade e união que só os condenados e absolutamente desenraizados podem ter, estrangeiros em terra hostil. Um era tudo que restava ao outro. Melhor ficarem juntos.
Começou a inventar brincadeiras, fabricava balõezinhos coloridos, enchia de ar quente de fogueira, e soltava, o céu noturno ficava repleto deles, no lugar das estrelas que já não podiam enxergar, eram balões gritando socorro nas correntes de vento. Girava centenas de piões prateados dourados furta-cor, vai que andróides gostam de cores metálicas, futuristas, punha pra rodar e ficava horas olhando. Tempo era tudo que restava. Pulava corda na frente deles até cair de exaustão. Nem, também.
Um dia resolveu fazer comida para eles. Devia ser doce. E cremoso. Com café e chocolate. Acordou e começou a preparar, mãos pacientes de cozinheira alquimista. Cheiros cores sabores.
Ingredientes:
200 g de biscoitos champagne
3 ovos
250 g de queijo mascarpone
75 g de açúcar
50 g de chocolate amargo em pó
½ xícara (de café) de  rum
3 xícaras (de café) de café

Bater as claras em neve. Juntar o queijo mascarpone, misturando delicadamente. 

Em seguida, acrescentar as gemas, o rum e o açúcar, obtendo um creme denso e homogêneo.

Fazer o café e deixar esfriar. Banhar os biscoitos nesse café, um por um, e colocar numa forma de cerâmica, feita de argila apanhada de manhã nos rios, úmida e fria, e cozida ao meio dia num forno bem quente.

Quando tiver a primeira camada de biscoitos completa, cobrir com o creme, fazendo camadas de creme e biscoitos. A última camada deve ser de creme. Pulverizar a superfície com o chocolate em pó.

Levar a repousar por duas horas antes de servir.
Bateu chantilly fresco perfumado com vagem de baunilha sem sementes, quando começou a cair a noite e esfriar, para colocar em cima. Duendes costumam vir de noite se alimentar de papa de aveia. Vai que andróides também se atrairiam por aquele doce.
Não vieram. Ela dormiu de tanto cansaço e sonhou.
Estavam em cima de uma montanha tão alta, imensa, com neve no pico, solitários na companhia que faziam um ao outro, olhando o horizonte lá de cima. Ela começou a construir uma escada na encosta da montanha, degrau por degrau, uma torre de babel que a levasse a eles, mas escorregava, respirava com dificuldades conforme subia, o coração disparava, não ia agüentar. Precisava tanto daquele contato, um olhar, uma palavra, um sorriso, não tinha nada, nem a viam ali, eles eram eles e deles. Ela não existia.
Quando acordou, cheia de gemidos enroscados, viu que estavam dormindo, lambuzados do doce que tinham roubado durante o sonho dela.
Resolveu radicalizar. Ficava deitada na linha do trem, de olhos fechados, embaixo do sol. Ou andando por ela, equilibrando nos trilhos. Se o trem viesse eles haveriam de avisá-la, dar um grito, até andróides aprendem a amar a vida. Avisaram nada. O trem também nunca veio.
Uma manhã tudo escureceu. Nuvens cinzas negras, ia cair chuva forte. Construiu uma cabana, deixou espaço para eles, um caramanchão bem seguro, passou o dia erguendo paus, cobrindo telhado, fechando fendas. Entrou lá quando a chuva começou, e eles ao relento. Nem aí. Ensopados, lado a lado, impassíveis, esperando a chuva passar. Gelados.
Amanheceram pingando água da chuva, dependurados de ponta-cabeça numa árvore, como morcegos cegos, braços cruzados, deixando secar. Ela dependurou-se, também. Braços cruzados. Era dia verdinho, recém-nascido da chuva anterior, sol novinho, quase recém-nascido da explosão primordial. Deu uma sensação de que aquele era seu dia, ia enfim conseguir contato.
Ficou ali de ponta-cabeça, cantando mandingas, desejando e esperando.
Foi a primeira vez que ouviu a voz de um deles.
Hora de morrer, Roy declarou em voz alta. Caíram dissolvidos, os dois.
Ela continua dependurada na árvore.

27 maio 2017

Tsunami

Para o último dos moicanos. O último dos guaranis. O último dos maias, dos astecas, dos incas. E o último dos gebuseus, dos cananeus, dos filisteus, dos aveus, dos sidônios, dos amorreus, dos gibleus. Quando é água e terra, fogo e ar, dá pra entender. Mas e quando a onda é gente?


“Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua
direita; mas tu não serás atingido” (Salmo 91)


Veio a onda. Grandona, aquosa, nem espacinho entre as gotas, nem gota, aquela água enorme que engoliu tudo em minutos e voltou pro mar, arrastando a praia pro fundo, os pedaços de casas, paredes dos edifícios, mesas, colchões, bicicletas, carros, brinquedos, papéis, roupas, guarda-roupas, as fotos das crianças brincando na praia, as crianças, arrastando corpos de afogados e de se-afogandos. Depois veio um tremor, um suspiro prolongado e duro, desgraça pouca é bobagem, era o fundo do mar se assentando, reencaixando no depois, e o pouco que restava de pé acabou de ruir e os se-afogando morreram de vez.

No corre-corre, na gritaria do depois, por que no antes era só silêncio, barulho de água e explosões, mas nem pio de gato de gente de passarinho de cachorro, onde estavam os bichos?, onde tinham se metido.

Na gritaria na choradeira do agora tinha sangue-frio, sabia conter o terror e se levantar, saiu juntando gente, dando ordens, falando alto e firme, organizando ajuda. Primeiro os feridos, dos mortos e das coisas cuidamos depois, ninguém beba dessa água, vamos abrir espaço, criar um abrigo, começar os primeiros-socorros. Era voz bem-vinda, necessária, vai ficar tudo bem, vamos cuidar de todos, olha o mar, já tá voltando ao normal, vai ficar tudo bem, repetia, consolo e auxílio. Quando ela dizia, sorrindo com os olhos, por que só ela conseguia sorrir naquele meio do inferno, toda bondade de mãos firmes e sorrisos, ela dizia vai ficar tudo bem, isso tinha que ser assim, era hora de limpeza, de purificação, hora desses milhares desencarnarem, se ficassem, era só sofrer mais. Consolo. Era hora.

Se era hora deles e não a nossa, a nós nos restava viver e lutar, chacoalhar o corpo, enxugar a agüeira e secar as lágrimas. Nossa hora era continuar vivos. Era uma paz, aqueles sorrisos, olhos de céu azul, mãos de criança de unhas roídas, uma firmeza que sossegava.

Veio a onda, grandona, aquosa, sem espaço entre as gotas, nem gota, arrastando tudo, os restos do que tinha sido antes, abrigo derrubado, os feridos afogados ou se afogando, e o pequeno grupo de socorro não tinha quem socorresse mais. Tanta água. Decerto era hora dos bons, também. Ou quem sabe, pensei, antes de também afundar, hora não era, nunca foi, as coisas acontecem por que acontecem, e onda ou não onda chega e vai, e quem tá por perto se idem, tem hora pra nada, não. 

Um silêncio de mundo sem habitantes, de mar primordial. O azul dos olhos dela afundou no mar escuro. Ainda vi.


Eloisa Helena Maranhão.

18 maio 2017

Oração

Para Lou Salomé, minha irmã, onde nunca poderá me ouvir.


"Em verdade, em verdade vos digo:
 se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vô-la
concederá em meu nome."

Era uma estrada longa e estreita, cheia de curvas, tortuosamente difícil de caminhar. De uma paisagem bela e dolorosa de faltar a respiração: árvores debruçadas sobre o caminho de terra, vários rios passando sobre pontes frágeis de madeira recobertas de limo nos trechos mais escuros e úmidos, ou ressecadas e estalando onde o sol batia sem comiseração.

Serena gostava de andar por ela; aprendera desde criança a amar os caminhos difíceis que levam à salvação, e larga é a porta da perdição; mesmo adulta, e ateia, continuou a preferir aquela estrada a qualquer outra larga, asfaltada, de pistas duplas e todo tipo de infraestrutura como telefones, guinchos e pedágios.

Se o carro quebrava, Serena consertava, improvisava peças, mas sempre dava um jeito de continuar sua caminhada na sua estrada, aquela preparada para ela desde antes dos tempos terem início, desde a pré-história das épocas; se havia obstáculos na estrada, Serena retirava os entulhos, colocava galhos sobre a lama, correntes nas rodas, e mesmo em casos mais sem esperança, como uma grande árvore atravessada na sua frente e abismos dos lados, ela havia pacientemente cortado a árvore em pedaços, durante meses, até desimpedir o seu caminho estreito.

Mas uma vez foi diferente; num período anormal de chuvas e ventos seu carro atolou no leito lamacento de um riacho, quando a ponte se fendeu sob si com um ruído de fim dos tempos.

Seu coração assustou-se, quieto e sem respirar, como um passarinho ameaçado, e ela percebeu que desta vez teria que buscar ajuda. Suas próprias forças não seriam suficientes para levantar o carro do meio da lama e continuar o que tinha de ser continuado.

Pôs-se a andar à pé até a estrada principal, a larga com infraestrutura, onde poderia pedir e obter auxílio.

Na caminhada que levou dias, Serena se lembrou dos filmes de África que assistia quando criança, quando o Mal se atolava em areias movediças e afundava se debatendo, agitando os braços e gritando com cara de pavor; mas o Bem sabia que era preciso se manter chafurdando sem nenhum movimento, e esperar pelo socorro que chegaria no momento oportuno. De nada adiantava agitar-se, isso só piorava a situação; a espera tranquila era mais sábia e eficaz nesses casos. O socorro viria, sempre vinha, num rabo de um macaco dependurado numa árvore, num cipó lançado por um providencial alguém, ou nos braços musculosos do Tarzan.

Serena não duvidava: sabia em quem tinha crido e estava certa que Ele a salvaria quando fosse realmente preciso. Tinha uma fé firme e sólida, no bojo de seu ateísmo charmoso, bem fundamentada nas experiências e promessas dos antigos; afinal, não era à toa que Zaratustra jurara, de pés juntos, que na Batalha Final, no frigir dos ovos, o Bem venceria o Mal. 

Andando, lembrou-se também da história dos sapos que caíram em barris de leite na fazenda, e o primeiro - que sempre assistia Tarzan, decerto assistia - morreu afogado sem se debater e sem se cansar. O segundo gritou - coaxou, sejamos rigorosos! - esperneou, e quando, já sem forças, desistiu para se entregar à sorte, percebeu que, enquanto se havia debatido "inutilmente", o leite fresco tinha se transformado em manteiga, dando-lhe apoio para saltar e escapar para a vida.

Mas essa história indigesta Serena preferiu ignorar, há casos e casos, leite fresco e areia movediça, um dia depois do outro, cada um cada um, e seja o que Deus quiser em Sua infinita sabedoria amém.

De alma leve, Serena postou-se à beira da estrada, acenando com seu colete como um lenço, como uma pequena estranha que lança apelos da beira da mais extrema de uma grande solidão em direção ao incrivelmente distante.

De início, confiante, fazia movimentos alegres, saltava, gritava, de seu posto de espera, pelo socorro, para os carros que passavam e nunca pararam.

Com o tempo os acenos foram escasseando, e os carros estranhamente também; apenas balançava seu improvisado lenço de leve, o coração arranhado pela esperança.

Recusou-se a sentar, a desistir. Continuaria ali de pé para sempre, no sol e no vento, sob a chuva e as estrelas, o colete desbotado e dissolvido pelos tempos, mas ali, amarrado onde era possível a qualquer um vê-lo pedindo socorro.

Debaixo do silêncio - a estrada larga havia se convertido no mundo quieto de antes da criação, silenciosa e amolecida como um pântano salobro - Serena esperava. O socorro viria. O Bem sempre vence o Mal.

Se Deus ouviu, não respondeu.

Eloisa Helena Maranhão.

18 fevereiro 2017

Cabrito

"Tem o infinito, tem o além, tem o além dos além. O além dos além é um transbordo." (Estamira)

Perna de cabrito, orelha de cabrito, barriga de cabrito, entranhas de cabrito espalhadas, olhos de cabrito fora do cabrito, pedaços de cabrito por todo lado, ensanguentados, cabritos estraçalhados. Carneiros, vacas, galinhas, porcos, aves, árvores e outras vegetações, humanos também.  
Pedaços, sangue, lama, sujeira e escombros em todo lugar, nada inteiro, tudo arrebentado, o planeta à beira da destruição, água, fogo, terra, ventanias, maremotos, terremotos, furacões. Guerras e revoluções. Devastação. Meu cabrito retalhado, carneiros também, ai mataro meu carneiro, ai, cortaro os quatro pé, não quero saber de nada, quero meu carneiro em pé.
Cabritos e carneiros são espécies diferentes, cabritos são caprinos e carneiros, ovinos, mas da mesma subfamília caprinae. São, portanto, diferentes, mas parecidos, o que significa que posso querer meu cabrito em pé, por que os carneiros representam os cabritos, e são representados por estes.
Meu cabrito representa não só os carneiros, mas todos os seres vivos, animais, vegetais, e, ao mesmo tempo, não é representado por nada nem ninguém, meu cabrito é. Apenas é.
É nada e tudo, meu cabrito é a vida, é o universo, é deus. É passado, presente, futuro; é o tempo e é o espaço, meu cabrito é a deusa mãe primordial. Meu cabrito é o transbordo.
Deus e deusa, despedaçados a si mesmos no altar dos sacrifícios inúteis; nem redime nem salva; nada salva, por que não há nada a ser salvo nem de que salvar. Meu cabrito é um deus infeliz, todo fragmentado, coitado do meu cabrito. Mas é livre, meu cabrito, justamente por que não representa nem é representado.
Como num caleidoscópio, as inúmeras partes do meu cabrito se ajeitam de também inúmeras formas diferentes, dependendo de como se olha; as porções do meu cabrito se unem, na tentativa de remontar o cabrito original, ideal, reconstruir o meu cabrito fragmentado numa coisa una que se imagina já ter sido. Mas não é possível isso, e consigo apenas um frankensbrito todo monstruoso.
Sim, por que essa ideia fixa no meu cabrito? Por que ele importa tanto? No que eu estaria pensando, se não fosse no meu cabrito? Na vida? Nos sonhos sacrificados no altar dos deuses infelizes? Na morte? Mas meu cabrito é a vida e é a morte, é deus e são os sonhos, e é a realidade e a abstração, eu já disse, meu cabrito é.
E, sendo dessa importância absoluta, num universo de relativos, meu cabrito se torna literatura. Oh, dizem, então, resplandecentes de esperança e euforia, tudo está salvo, por que a literatura salva! A arte salva! A religião salva! A psicologia salva! O signo salva, o simbólico salva. O bééé salva. Alguma coisa há de salvar.
Mas não, retruco, destituída de resplandescência, vazia de esperança, oca de euforia, nada salva. A literatura também não salva, pois a literatura é uma cabrita despedaçada, ensanguentada e abandonada no campo de guerra.
O que salva, então? Não sei nem quero saber. De nada. Só quero meu cabrito em pé. Meu totem e minha deusa, meus, que sou órfã desde antes do nascimento, órfã de concepção. Meu cabrito é tudo que tenho, e é tudo que não tenho. Meu cabrito é meu nada absoluto.
Deixem-me em paz com meu cabrito.
Eloisa Helena Maranhão.