18 fevereiro 2017

Cabrito

"Tem o infinito, tem o além, tem o além dos além. O além dos além é um transbordo." (Estamira)

Perna de cabrito, orelha de cabrito, barriga de cabrito, entranhas de cabrito espalhadas, olhos de cabrito fora do cabrito, pedaços de cabrito por todo lado, ensanguentados, cabritos estraçalhados. Carneiros, vacas, galinhas, porcos, aves, árvores e outras vegetações, humanos também.  
Pedaços, sangue, lama, sujeira e escombros em todo lugar, nada inteiro, tudo arrebentado, o planeta à beira da destruição, água, fogo, terra, ventanias, maremotos, terremotos, furacões. Guerras e revoluções. Devastação. Meu cabrito retalhado, carneiros também, ai mataro meu carneiro, ai, cortaro os quatro pé, não quero saber de nada, quero meu carneiro em pé.
Cabritos e carneiros são espécies diferentes, cabritos são caprinos e carneiros, ovinos, mas da mesma subfamília caprinae. São, portanto, diferentes, mas parecidos, o que significa que posso querer meu cabrito em pé, por que os carneiros representam os cabritos, e são representados por estes.
Meu cabrito representa não só os carneiros, mas todos os seres vivos, animais, vegetais, e, ao mesmo tempo, não é representado por nada nem ninguém, meu cabrito é. Apenas é.
É nada e tudo, meu cabrito é a vida, é o universo, é deus. É passado, presente, futuro; é o tempo e é o espaço, meu cabrito é a deusa mãe primordial. Meu cabrito é o transbordo.
Deus e deusa, despedaçados a si mesmos no altar dos sacrifícios inúteis; nem redime nem salva; nada salva, por que não há nada a ser salvo nem de que salvar. Meu cabrito é um deus infeliz, todo fragmentado, coitado do meu cabrito. Mas é livre, meu cabrito, justamente por que não representa nem é representado.
Como num caleidoscópio, as inúmeras partes do meu cabrito se ajeitam de também inúmeras formas diferentes, dependendo de como se olha; as porções do meu cabrito se unem, na tentativa de remontar o cabrito original, ideal, reconstruir o meu cabrito fragmentado numa coisa una que se imagina já ter sido. Mas não é possível isso, e consigo apenas um frankensbrito todo monstruoso.
Sim, por que essa ideia fixa no meu cabrito? Por que ele importa tanto? No que eu estaria pensando, se não fosse no meu cabrito? Na vida? Nos sonhos sacrificados no altar dos deuses infelizes? Na morte? Mas meu cabrito é a vida e é a morte, é deus e são os sonhos, e é a realidade e a abstração, eu já disse, meu cabrito é.
E, sendo dessa importância absoluta, num universo de relativos, meu cabrito se torna literatura. Oh, dizem, então, resplandecentes de esperança e euforia, tudo está salvo, por que a literatura salva! A arte salva! A religião salva! A psicologia salva! O signo salva, o simbólico salva. O bééé salva. Alguma coisa há de salvar.
Mas não, retruco, destituída de resplandescência, vazia de esperança, oca de euforia, nada salva. A literatura também não salva, pois a literatura é uma cabrita despedaçada, ensanguentada e abandonada no campo de guerra.
O que salva, então? Não sei nem quero saber. De nada. Só quero meu cabrito em pé. Meu totem e minha deusa, meus, que sou órfã desde antes do nascimento, órfã de concepção. Meu cabrito é tudo que tenho, e é tudo que não tenho. Meu cabrito é meu nada absoluto.
Deixem-me em paz com meu cabrito.
Eloisa Helena Maranhão.