27 maio 2017

Tsunami

Para o último dos moicanos. O último dos guaranis. O último dos maias, dos astecas, dos incas. E o último dos gebuseus, dos cananeus, dos filisteus, dos aveus, dos sidônios, dos amorreus, dos gibleus. Quando é água e terra, fogo e ar, dá pra entender. Mas e quando a onda é gente?


“Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua
direita; mas tu não serás atingido” (Salmo 91)


Veio a onda. Grandona, aquosa, nem espacinho entre as gotas, nem gota, aquela água enorme que engoliu tudo em minutos e voltou pro mar, arrastando a praia pro fundo, os pedaços de casas, paredes dos edifícios, mesas, colchões, bicicletas, carros, brinquedos, papéis, roupas, guarda-roupas, as fotos das crianças brincando na praia, as crianças, arrastando corpos de afogados e de se-afogandos. Depois veio um tremor, um suspiro prolongado e duro, desgraça pouca é bobagem, era o fundo do mar se assentando, reencaixando no depois, e o pouco que restava de pé acabou de ruir e os se-afogando morreram de vez.

No corre-corre, na gritaria do depois, por que no antes era só silêncio, barulho de água e explosões, mas nem pio de gato de gente de passarinho de cachorro, onde estavam os bichos?, onde tinham se metido.

Na gritaria na choradeira do agora tinha sangue-frio, sabia conter o terror e se levantar, saiu juntando gente, dando ordens, falando alto e firme, organizando ajuda. Primeiro os feridos, dos mortos e das coisas cuidamos depois, ninguém beba dessa água, vamos abrir espaço, criar um abrigo, começar os primeiros-socorros. Era voz bem-vinda, necessária, vai ficar tudo bem, vamos cuidar de todos, olha o mar, já tá voltando ao normal, vai ficar tudo bem, repetia, consolo e auxílio. Quando ela dizia, sorrindo com os olhos, por que só ela conseguia sorrir naquele meio do inferno, toda bondade de mãos firmes e sorrisos, ela dizia vai ficar tudo bem, isso tinha que ser assim, era hora de limpeza, de purificação, hora desses milhares desencarnarem, se ficassem, era só sofrer mais. Consolo. Era hora.

Se era hora deles e não a nossa, a nós nos restava viver e lutar, chacoalhar o corpo, enxugar a agüeira e secar as lágrimas. Nossa hora era continuar vivos. Era uma paz, aqueles sorrisos, olhos de céu azul, mãos de criança de unhas roídas, uma firmeza que sossegava.

Veio a onda, grandona, aquosa, sem espaço entre as gotas, nem gota, arrastando tudo, os restos do que tinha sido antes, abrigo derrubado, os feridos afogados ou se afogando, e o pequeno grupo de socorro não tinha quem socorresse mais. Tanta água. Decerto era hora dos bons, também. Ou quem sabe, pensei, antes de também afundar, hora não era, nunca foi, as coisas acontecem por que acontecem, e onda ou não onda chega e vai, e quem tá por perto se idem, tem hora pra nada, não. 

Um silêncio de mundo sem habitantes, de mar primordial. O azul dos olhos dela afundou no mar escuro. Ainda vi.


Eloisa Helena Maranhão.

18 maio 2017

Oração

Para Lou Salomé, minha irmã, onde nunca poderá me ouvir.


"Em verdade, em verdade vos digo:
 se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vô-la
concederá em meu nome."

Era uma estrada longa e estreita, cheia de curvas, tortuosamente difícil de caminhar. De uma paisagem bela e dolorosa de faltar a respiração: árvores debruçadas sobre o caminho de terra, vários rios passando sobre pontes frágeis de madeira recobertas de limo nos trechos mais escuros e úmidos, ou ressecadas e estalando onde o sol batia sem comiseração.

Serena gostava de andar por ela; aprendera desde criança a amar os caminhos difíceis que levam à salvação, e larga é a porta da perdição; mesmo adulta, e ateia, continuou a preferir aquela estrada a qualquer outra larga, asfaltada, de pistas duplas e todo tipo de infraestrutura como telefones, guinchos e pedágios.

Se o carro quebrava, Serena consertava, improvisava peças, mas sempre dava um jeito de continuar sua caminhada na sua estrada, aquela preparada para ela desde antes dos tempos terem início, desde a pré-história das épocas; se havia obstáculos na estrada, Serena retirava os entulhos, colocava galhos sobre a lama, correntes nas rodas, e mesmo em casos mais sem esperança, como uma grande árvore atravessada na sua frente e abismos dos lados, ela havia pacientemente cortado a árvore em pedaços, durante meses, até desimpedir o seu caminho estreito.

Mas uma vez foi diferente; num período anormal de chuvas e ventos seu carro atolou no leito lamacento de um riacho, quando a ponte se fendeu sob si com um ruído de fim dos tempos.

Seu coração assustou-se, quieto e sem respirar, como um passarinho ameaçado, e ela percebeu que desta vez teria que buscar ajuda. Suas próprias forças não seriam suficientes para levantar o carro do meio da lama e continuar o que tinha de ser continuado.

Pôs-se a andar à pé até a estrada principal, a larga com infraestrutura, onde poderia pedir e obter auxílio.

Na caminhada que levou dias, Serena se lembrou dos filmes de África que assistia quando criança, quando o Mal se atolava em areias movediças e afundava se debatendo, agitando os braços e gritando com cara de pavor; mas o Bem sabia que era preciso se manter chafurdando sem nenhum movimento, e esperar pelo socorro que chegaria no momento oportuno. De nada adiantava agitar-se, isso só piorava a situação; a espera tranquila era mais sábia e eficaz nesses casos. O socorro viria, sempre vinha, num rabo de um macaco dependurado numa árvore, num cipó lançado por um providencial alguém, ou nos braços musculosos do Tarzan.

Serena não duvidava: sabia em quem tinha crido e estava certa que Ele a salvaria quando fosse realmente preciso. Tinha uma fé firme e sólida, no bojo de seu ateísmo charmoso, bem fundamentada nas experiências e promessas dos antigos; afinal, não era à toa que Zaratustra jurara, de pés juntos, que na Batalha Final, no frigir dos ovos, o Bem venceria o Mal. 

Andando, lembrou-se também da história dos sapos que caíram em barris de leite na fazenda, e o primeiro - que sempre assistia Tarzan, decerto assistia - morreu afogado sem se debater e sem se cansar. O segundo gritou - coaxou, sejamos rigorosos! - esperneou, e quando, já sem forças, desistiu para se entregar à sorte, percebeu que, enquanto se havia debatido "inutilmente", o leite fresco tinha se transformado em manteiga, dando-lhe apoio para saltar e escapar para a vida.

Mas essa história indigesta Serena preferiu ignorar, há casos e casos, leite fresco e areia movediça, um dia depois do outro, cada um cada um, e seja o que Deus quiser em Sua infinita sabedoria amém.

De alma leve, Serena postou-se à beira da estrada, acenando com seu colete como um lenço, como uma pequena estranha que lança apelos da beira da mais extrema de uma grande solidão em direção ao incrivelmente distante.

De início, confiante, fazia movimentos alegres, saltava, gritava, de seu posto de espera, pelo socorro, para os carros que passavam e nunca pararam.

Com o tempo os acenos foram escasseando, e os carros estranhamente também; apenas balançava seu improvisado lenço de leve, o coração arranhado pela esperança.

Recusou-se a sentar, a desistir. Continuaria ali de pé para sempre, no sol e no vento, sob a chuva e as estrelas, o colete desbotado e dissolvido pelos tempos, mas ali, amarrado onde era possível a qualquer um vê-lo pedindo socorro.

Debaixo do silêncio - a estrada larga havia se convertido no mundo quieto de antes da criação, silenciosa e amolecida como um pântano salobro - Serena esperava. O socorro viria. O Bem sempre vence o Mal.

Se Deus ouviu, não respondeu.

Eloisa Helena Maranhão.